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31/05/2011

A hipocrisia do discurso de Obama sobre o Oriente Médio



A profunda hipocrisia do discurso do presidente Obama sobre o Oriente Médio onde mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região.

  

O presidente Obama foi ao ar em 18/05 para falar sobre as revoltas e os conflitos que se espalham pelo Oriente Médio. A hegemonia dos Estados Unidos sobre está região estratégica e rica em petróleo tem sido o pivô da política externa de Washington por décadas. Utilizando um sistema de poder e de regimes submissos, a par de suas vastas forças militares na região, os Estados Unidos vêm sustentando uma rede de ditaduras brutais e o regime israelense por décadas.

Este sistema de controle imperial vem sendo sacudido por levantes populares que começaram na Tunísia e se espraiaram para o Egito e outros países. Sobre esta conjuntura, a administração Obama se pronunciou na sede do Departamento de Estado como parte de um esforço para reafirmar a liderança norte-americana sobre a região ora em processo de célere mudança.

Valendo-se da retórica de democracia e liberdade para mascarar a responsabilidade do imperialismo norte-americano na duradoura opressão e sofrimento por que passam os povos do Oriente Médio, o discurso do presidente Obama foi uma demonstração de inescrutável hipocrisia.

Hipocrisia: o presidente Obama disse que “o maior recurso não explorado no Oriente Médio e Norte da África é o talento de seus povos”. 

Realidade: a estratégia dos Estados Unidos é baseada no controle do mais cobiçado recurso do Oriente Médio: dois terços das reservas mundiais conhecidas de petróleo. O governo de Washington forneceu bilhões de dólares e armou as mais brutais ditaduras do Oriente Médio durante décadas, uma prática a que a administração Obama deu ampla continuidade.



O governo dos Estados Unidos jamais bloqueou ou cortou os fundos destinados à ditadura de Mubarak ainda quando o regime matou mais de 850 pacíficos manifestantes. Mais de 5 mil civis no Egito foram acusados e presos desde 25 de janeiro em julgamentos conduzidos pelos militares egípcios. Os Estados Unidos continuam a enviar maciças somas aos militares egípcios a despeito da contínua repressão contra o povo.

Hipocrisia: O presidente Obama declarou: “a política dos Estados Unidos será de promover reformas em toda a região e de apoiar as transições para a democracia”. 

Realidade: Os únicos governos do Oriente Médio que foram objeto de invasão, sanções econômicas e derrubadas pelo governo dos Estados Unidos foram aqueles que seguem políticas independentes do controle, político, militar e econômico dos Estados Unidos.

Washington jamais impôs sanções econômicas à ditadura de Mubarak e somente se manifestou publicamente contra Mubarak quando a maré da revolução tornou-se irresistível. Do mesmo modo, os Estados Unidos apoiam a brutal monarquia da Arábia Saudita.

Hipocrisia: o presidente Obama advoga para os povos do Oriente Médio os “direitos fundamentais de expressar seu pensamento e ter acesso às informações”, afirmando que, “a verdade não pode ser escondida e a legitimidade dos governos vai depender em última instância de cidadãos ativos e bem informados”.

Realidade: a administração Obama exorbitou ao punir aqueles que queriam informar o público ao jogar luz sobre as atividades do governo norte-americano. Bradley Manning permanece em prisão sob ameaça de prisão perpétua, sendo mantido em brutais condições que levaram o Relator Especial sobre Tortura das Nações Unidas a buscar investigação.

O Departamento de Justiça está trabalhando à máxima velocidade para processar Julian Assange, do Wikileaks, por abrir documentos governamentais ao público, muitos dos quais expõem o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O governo Obama leva a cabo uma grande campanha, mais agressiva do que qualquer governo anterior, a fim de processar criminalmente informantes que exponham a verdade sobre ações governamentais ilegais. 

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Os Estados Unidos se opõem ao uso da violência e da repressão contra o povo da região.” 

Realidade: Os Estados Unidos sob Obama estão envolvidos na invasão, ocupação e bombardeio ao mesmo tempo de quarto países predominantemente muçulmanos: Iraque, Afeganistão, Líbia e Paquistão. Além do mais, o chefe de Estado, isoladamente o maior violador dos direitos humanos fundamentais e perpetuador da violência na região, é George W. Bush, cuja invasão ilegal do Iraque custou a vida de mais de um milhão de pessoas. 

A invasão de 19 de março de 2003 foi uma guerra de agressão contra um país que não constituía nenhuma ameaça aos Estados Unidos ou ao povo dos Estados Unidos. A invasão e ocupação do Iraque levaram à morte de mais árabes do que os que foram mortos por todas as ditaduras da região somadas. O presidente Obama chamou Osama Bin Laden de assassino em massa.
O 11 de setembro de 2001 foi de fato um repugnante crime que tirou a vida de milhares de trabalhadores inocentes, mas medindo-se na ordem de magnitude de vítimas fatais, o crime de assassinato em massa no Iraque não tem comparação. George W. Bush não só não foi preso por assassinato em massa do povo iraquiano como é tratado com honras pela administração Obama. 

Hipocrisia: Numa tentativa de apaziguar a opinião pública árabe, o discurso do presidente Obama dá a impressão que os Estados Unidos insistem com o retorno de Israel às fronteiras anteriores a 1967. Obama afirmou “precisamente devido à nossa amizade, é importante que eu diga a verdade: o status quo é insustentável e Israel também deve agir corajosamente em direção a uma paz duradoura”.

Realidade: A guerra de Israel contra o povo palestino seria impossível sem o apoio dos Estados Unidos, que segue constante. O maior destinatário individual da ajuda externa dos Estados Unidos é o Estado de Israel, que usa os 3 bilhões de dólares de receita anualmente para manter o sítio ao povo de Gaza, continuar a ocupação ilegal da Cisjordânia e evitar o retorno das famílias de 750 mil palestinos que foram expulsos de suas casas e aldeias da Palestina histórica em 1948.

As Nações Unidas, em várias resoluções, condenaram a invasão e ocupação israelense em 1967 de Gaza, da Cisjordânia e das Colinas de Golã da Síria. Longe de impor sanções econômicas, o presidente Obama prometeu a Israel um mínimo de 30 bilhões de dólares em ajuda militar para os próximos 10 anos, funcionando, portanto, como um parceiro da ocupação.

O discurso de Obama deixou claro também que os Estados Unidos apoiariam Israel na retenção de vastas faixas da Cisjordânia. Isto é o que ele quis dizer ao se referir a “permuta de terras”. Nos próximos dias, Obama manterá encontros privados com Benjamin Netanyahu e será o orador principal da conferência do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Com certeza, irá reforçar os fortes vínculos militares com Israel e a ajuda financeira.

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Nós apoiamos um conjunto de direitos universais. Esses direitos incluem liberdade de expressão; liberdade de reuniões pacíficas; liberdade de religião; igualdade entre homem e mulher sob o império da lei e liberdade para escolher seus próprios líderes – onde quer que você viva em Bagdá ou Damasco, Sanaa ou Teerã ... Continuaremos a insistir que esses direitos universais se apliquem tanto às mulheres quanto aos homens.” 

Realidade: Enquanto o governo dos Estados Unidos, junto com a Inglaterra e a França, os antigos colonizadores do Oriente Médio e da África, bombardeavam a Líbia com mísseis e bombas de última geração em nome da “proteção aos civis” e da “promoção da democracia”, o governo Obama apresentava a mais morna crítica à monarquia do Bahrein quando esta e a monarquia saudita matavam e prendiam manifestantes pacíficos no Bahrein.
Nenhuma sanção foi imposta ao Bahrein ou Arábia Saudita. A monarquia saudita é a suprema negação de democracia, privando as mulheres de todos os direitos, privando os trabalhadores de formar sindicatos e privando todos os setores da população de qualquer direito de livre manifestação, reunião ou imprensa. Nunca houve eleição na Arábia Saudita.

Porém as funções da monarquia saudita como cliente e submissa dos Estados Unidos não fazem dela objeto de sanções econômicas ou “mudança de regime” como o são os governos da Síria e da Líbia. A monarquia do Bahrein igualmente funciona como cliente dos Estados Unidos e permite que a 5ª Frota utilize o Bahrein como base naval. Eis o motivo porque Washington refere-se à monarquia como “um parceiro de longa data”.

Hipocrisia: O presidente Obama denunciou o governo do Irã, afirmando que “iremos continuar a insistir que o povo iraniano merece ter direitos universais” e condenou o que ele chamou de “programa nuclear ilícito” do Irã.

Realidade: Ele deixou de mencionar que foi a CIA junto com o serviço secreto britânico, que orquestrou a derrubada do governo democrático do Irã em 1953 e reinstalou a monarquia do xá. Eles derrocaram a democracia iraniana quando o Irã nacionalizou seu petróleo da AIOC/British Petroleum. Os Estados Unidos só romperam relações com o governo iraniano quando a ditadura do xá foi derrocada por uma revolução nacional popular.

Com relação às armas nucleares, o governo de Israel recusou-se a assinar o tratado de não-proliferação nuclear e acumulou 200 “ilícitas” armas nucleares. É claro, os Estados Unidos têm milhares de armas nucleares e permanece sendo o único país a ter usado armas nucleares, destruindo Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Hipocrisia: o presidente Obama diz ao mundo que os Estados Unidos partilham dos objetivos da revolução árabe, que “a repressão irá fracassar, que as tiranias irão cair, e que todo homem e mulher são dotados de certos direitos inalienáveis.”

Realidade: O governo dos Estados Unidos, seja ele comandado pelos republicanos ou democratas, vê o Oriente Médio, rico em petróleo, pelas lentes do império. Operando por meio de uma rede de regimes amigos que inclui Israel, Arábia Saudita, Jordânia, a ditadura de Mubarak no Egito, o xá do Irã até sua deposição em 1979 e outros regimes da região, suplementado por dezenas de milhares de tropas norte-americanas posicionadas em bases de toda a região, e por porta-aviões, os Estados Unidos almejam dominar e controlar a região responsável por dois terços das reservas mundiais de petróleo conhecidas.

Mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região. 



22/05/2011  Brian Becker e Mara Verheyden-Hilliard* | Washington
 
* Brian Becker é co-diretor do International Action Center. Mara Verheyden-Hilliard é ativista, promotora e co-fundadora da Partnership for Civil Justice. Ambos co-escreveram esse artigo para a organização ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism). Traduzido por Max Altman. 

18/05/2011

JORNALISMO DE GUERRA


Iraque 2005: Samar Hassan, na época com 5 anos, presenciou o assassinato dos seus pais por soldados americanos. Esse momento trágico foi fotografado por Chris Hondros e congelou na história o sofrimento dos civis e crianças nessas guerras travadas em nome da liberdade. Ficaram ela e o irmão, que alguns anos depois também foi assassinado por insurgentes iraquianos por suspeitarem da relação da família de Hassan com os americanos, porque depois da foto rodar o mundo, ele recebeu auxílio médico nos EUA.

O círculo trágico em torno desta história continuou, esse ano o fotógrafo Chris Hondros e o Documentarista de Restrepo, Tim Hetherington, foram mortos na linha de frente no conflito na Líbia.
A fotografia de Samar Hassan é uma daquelas imagens que ultrapassa a si mesma. Qualquer coisa que se diga sobre o seu significado está aquém dos agenciamentos que ela provoca na realidade.

Esse tipo de imagem levanta a discussão acerca do trabalho documental e  foto-jornalístico. Não se trata de querer mudar o mundo, mas mostrar ao mundo como ele realmente é. As versões dos fotógrafos em situação de Guerra sobre sua própria atividade talvez deixem demasiados traços de autojustificativa. Contudo, é por fotografias como as produzidas por Chris Hondron, que vítimas de violência da guerra passam a existir em nossas consciências. Não fosse por elas, as pessoas longe do locais do conflito e não afetadas diretamente por ela, poderiam evitar todos os questionamentos e contradições da violência que, em muitos casos, são levadas adiante em seu próprio benefício, embora nem sempre por sua vontade.


Com o auxílio da fotografia, a guerra e a violência forçam seu registro no imaginário. Diferente do fluxo de imagens da TV ou do cinema, o still, a imagem parada, exige um tempo e resiste à fácil assimilação. Ela desafia o expectador a entrar em outro tempo, no tempo necessário ao pensamento. Já não posso ignorar a existência de Samar Hassan; não posso deixar de reconhecer que a guerra causou-lhe danos, e que sua vida foi definitivamente modificada; não posso negar que ali houve um crime; que ela é vítima de um crime; e que o crime permanece impune e sem perspectiva de reparação. E se me engajo na tarefa de expulsão desse registro de minha consciência, ela não se fará sem grande esforço e certo prejuízo.


Filmes com esta temática:


A reportagem abaixo, foi publicada pelo The New York Times e reproduzida no encarte de mesmo nome da Folha de São Paulo da última segunda, 16 de maio de 2011. E conta a história de Hassan, hoje com 12 anos.


Vítima da guerra olha para trás


MOSUL, Iraque - Até o início de maio, Samar Hassan nunca tinha vislumbrado a foto dela que foi vista por milhões de pessoas; ela nunca soubera que a foto se tornara uma das imagens mais famosas da guerra do Iraque.

"Meu irmão estava doente. Nós o estávamos levando ao hospital, e, no caminho de volta, aconteceu aquilo", disse Samar. "Ouvimos o som de disparos. Minha mãe e meu pai foram mortos assim."

A imagem de Samar, com cinco anos na época, gritando e manchada de sangue depois de soldados americanos abrirem fogo contra o carro de sua família na cidade de Tal Afar, no norte do Iraque, em janeiro de 2005, iluminou o horror das mortes de civis e tornou-se uma das poucas imagens desse conflito que entraram para os clássicos da fotografia de guerra. A foto vem ganhando atenção redobrada como parte do grande conjunto da obra de Chris Hondros, o fotógrafo da Getty Images morto recentemente na linha de frente em Misrata, na Líbia.

A foto de Samar ficou congelada na história, mas a vida dela continuou, seguindo uma trajetória emblemática daquilo que vem sendo suportado por tantos iraquianos.

Em um país cujo sistema de saúde não possui capacidade quase nenhuma de tratar os aspectos psicológicos do trauma, milhares de iraquianos são abandonados a sós com seu sofrimento.

Hoje, com 12 anos de idade, Samar vive nos arredores de Mossul em uma casa de dois andares. Sua irmã mais velha, Intisar, e o marido dela, um ex-policial desempregado, cuidam dela.


As dores da guerra atingiram milhares de iraquianos, mas, mesmo aqui, a história de Samar se destaca. Três anos depois de seus pais serem mortos, seu irmão Rakan morreu quando um ataque insurgente danificou gravemente a casa em que ela vive hoje.  Rakan ficara gravemente ferido no incidente que matou os pais dele e Samar. Depois da publicação das fotos de Chris Hondros, ele foi enviado a Boston para tratamento médico.

O marido de Intisar, Nathir Bashir Ali, suspeita que sua casa foi atacada por insurgentes como represália pelo envio de Rakan aos EUA. "Quando Rakan voltou da América, todo o mundo pensou que eu fosse espião", explicou.

Samar deixou a escola no ano passado porque era tímida demais e não estava se saindo bem, contou Ali, mas a menina disse que gostaria de voltar a estudar e que tem a esperança de tornar-se médica quando crescer. Ela sai de casa apenas em passeios pouco frequentes da família e tem duas amigas que a visitam para brincar de boneca e bater papo. Samar passa seus dias fazendo faxina, ouvindo música e assistindo a capítulos do seu programa de TV favorito, a fotonovela turca "Amor Proibido".

"Eu sou Samar", disse ela, trajando vestido vermelho comprido e sentada no sofá ao lado de Ali. Dois de seus irmãos, que também estavam no carro quando os pais deles foram mortos, estavam sentados ao lado.
"Já os levei muitas vezes ao hospital, lugar em que recebem comprimidos" para problemas emocionais, disse Ali. "Quando saímos e eles veem uma família, ficam tristes", ele contou. Às vezes, ele encontra as crianças juntas em um cômodo, chorando. "Quando elas se lembram do acidente, é como se seus pais tivessem acabado de morrer."

A foto de Samar exerceu impacto, pois foi testemunho visual de flagelo especial dessa guerra: a morte de civis inocentes. A imagem foi tema de discussões nos mais altos escalões do Pentágono quando foram estudadas maneiras de reduzir as baixas de civis.

Em entrevista, Samar, abraçando uma almofada contra o peito, recordou o fotógrafo: "Ele estava fazendo fotos de mim. Então, ele parou. Me trouxeram um casaco, me colocaram no caminhão e trataram a ferida em minha mão."
Ela disse que entende que a foto mostrou ao mundo "a coisa triste que está acontecendo no Iraque".

Samar apontou para uma foto de sua família na parede. "Sempre sonho com meu pai, minha mãe e meu irmão."

Por Tim Arango com reportagem de Duraid Adnan


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