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07/06/2010

Um espartano fusca em Montevidéu

por Ariel Palacios

Mujica, o espartano presidente do Uruguai em seu veículo pessoal (e único patrimônio). No Uruguai, bem como em vários outros países de língua espanhola (não em todos), o fusca é chamado de ‘escarabajo’ (escaravelho). Nos países anglo-saxões, de ‘beetle’ (escaravelho). 
O termo ‘fusca’ é uma corruptela de ‘Volks’ (por Volkswagen).

Um escangalhado fusca modelo 1987 com valor estimado em US$ 1.900 é o único patrimônio do presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, segundo indica sua declaração oficial de bens apresentada à Junta de Transparência e Ética Pública. O espartano ex-guerrilheiro tupamaro, ex-senador, ex-ministro e floricultor comprou o fusca em 2004. Até esse ano – durante duas décadas – ele utilizou uma lambreta para deslocar-se em Montevidéu.


O uso desse pequeno veículo causou surpresa em 1994, quando foi eleito deputado federal. Na ocasião, um guarda do estacionamento do Senado viu que um senhor de aspecto desalinhado, com capacete, que descia da lambreta e aproximou-se dele e disse: “aqui não pode estacionar, não. ..por acaso o sr. pretende ficar aí muito tempo?”. Mujica (que havia estado 13 anos preso e torturado durante a ditadura militar), removeu o capacete (só então foi reconhecido pelo guarda) e disse em tom brincalhão: “bom, se os milicos não me tiram daqui, penso ficar pelo menos cinco anos…”.
 
A chácara onde Mujica mora, em Rincón del Cerro, no lado oeste de Montevidéu, está no nome de sua esposa, a senadora Lucia Topolansky.

A senadora, também uma ex-guerrilheira, ressaltou que nem ela nem seu esposo possuem cartões de crédito nem contas bancárias: “somos antiquados”.
O salário que Mujica – um socialista de 75 anos definido de “amigável” com os mercados – recebe como presidente, de US$ 11.545, por decisão pessoal é destinada em sua maior parte a obras sociais. Essa é uma política em prática desde os anos 90 por parte dos parlamentares e ministros que integram a coalizão de governo Frente Ampla, de centro-esquerda. 

Neste caso, Mujica doa 70% de seu salário de presidente para o Plano de Moradias Populares. Mujica, nas horas livres, sobe no trator e prepara a terra da chácara, onde planta flores e hortaliças, a principal fonte de renda.
 

Mujica e Lucia Topolansky, nos anos 90, na intrépida vespa



08/12/2009

ELEIÇÕES NA BOLÍVIA

Depois de um ex-tupamaro é agora a vez de ser reeleito um índio, Evo Morales, para a presidência da Bolívia. Sua vitória pode ser considerada esmagadora, uma vez que atingiu 63% dos votos, enfraquecendo ainda mais a já debilitada oposição e conquistando dois terços das cadeiras do senado, o que permitirá ao presidente “aymará” o aprofundamento de seu projeto socialista.

Os aymará têm uma bandeira que os identifica. Se trata da wiphala que com suas sete cores representam as crenças e costumes desta etnia andina que junto a quechua é a mais numerosa da Bolívia, e a que pertence Evo Morales. La wiphala não falta a nenhum dos atos eleitorais em que participa, para não esquecer que se trata do primeiro presidente indígena eleito em um país latino-americano. Durante os três anos em que esteve no poder, Morales tem mostrado sua intenção de integrar os indígenas (que na Bolívia correspondem a metade da população) em uma sociedade que durante séculos os tratou como cidadãos de segunda ordem. No entanto, e a pesar dos indígenas terem conquistado muitos espaços na via pública, a realidade é que algumas da quase 40 etnias que coexistem na Bolívia, agonizam.

Uma vez mais a extrema-direita revanchista vê-se derrotada. Os seus planos secessionistas das terras mais ricas por ora foram derrotados, mas por certo não pararão. Os Bolivianos não podem baixar a guarda. Os "exemplos" mais a norte assim o aconselham.

Uma nota positiva das eleições foi a transparência do processo, avalizada pelos observadores internacionais que cobriram todo o país. A Organização dos Estados Americanos (OEA), com o colombiano Horácio Serpa à frente, qualificou a jornada como "um dia de participação massiva, alegre, pacífica e cívica, o que dá a este processo uma especial legitimidade democrática".

A introdução do censo biométrico que controla os eleitores não só pelo seu documento de identidade mas também pela impressão digital e também pela fotografia era, sem dúvida, um dos detalhes que mais interesse suscitou entre meios de comunicação de todo o mundo.

O chefe da missão de observadores enviada pela União Européia para as eleições gerais da Bolívia, José Antonio de Gabriel, destacou a “completa tranqüilidade” que se viveu durante a jornada de votação na qual praticamente não houve nenhum acidente.

José Antonio de Gabriel também elogiou a Corte Nacional Eleitoral do país andino. Segundo ele, o organismo eleitoral “fez muito bem o seu trabalho”. Na sua opinião, o padrão biométrico estreado este ano na Bolívia “estabelece muitas salvaguardas contra a fraude, já que utiliza fotos e as impressões digitais, de tal forma que é praticamente impossível que uma pessoa possa votar várias vezes”.

Gabriel, que recentemente capitaneou a missão em El Salvador, crê que na América Latina há “uma nova tendência para uma maior participação”, para além disso “uma nova sensibilidade por incluir todos os cidadãos nos processos de votação”. Representando mais uma bofetada de luva branca naqueles que se recusam a que estabeleça a democracia na América Latina.

Muitos são os desafios que acompanharão este segundo mandato com mais poderes, principalmente desenvolver o país e melhorar as condições sociais da segunda população mais pobre da América Latina.

Mas, acreditamos que na Bolívia a revolução ali operada deixou de ser de

Evo Morales e passou a ser do povo boliviano.


O texto acima é uma adaptação minha ao texto de título “Depois do Tupamaro, o Índio” publicado no Blog Português “Salvo Conduto” http://salvoconduto.blogs.sapo.pt/ , com contribuição da cobertura jornalística feita pelos espanhóis do “Periodismo e Direitos Humanos” na Bolívia intitulada “La agonía de los otros indígenas bolivianos”, vide na íntegra em http://www.pmasdh.com/

30/11/2009

SALUDOS URUGUAYOS


Todo gaúcho é meio uruguaio, e como não poderia deixar de ser,
saudosos com a vitória da Frente Ampla, de Pepe Mujica 52 a 47%.

Referir este país é sempre falar um pouco de sua gente

e de nós mesmos. Somos filhos de uma geração,

que sempre que necessitou encontrou

guarida nos hermanos. Talvez pela proximidade geográfica

e quem sabe pela identidade cultural do gaúcho, do churrasco,

do chimarrão, de Benedetti e Galeano dentre outros.

Mas tenho certeza, sobretudo, pela acolhida afável e sempre

afetuosa de seu povo, principalmente nos

momentos mais difíceis da construção da resistência

democrática no Brasil, de forma sempre generosa albergava

nossos exilados políticos, apoiando-lhes na reconstrução

de uma nova fase em suas vidas.



Novos ventos têm soprado na América Latina...


Sendo capaz de projetar como grande líder, um dirigente político
de mãos calejadas e de corpo pisoteado e perfurado nos porões da ditadura,
mas que conservou e manteve na fenomenologia de sua alma,
a generosidade e confiabilidade dos seus, sem deixar de dedicar-se
de forma pacienciosa durante anos e anos, às mais longínquas
comarcas e redutos de seus conterrâneos.

Esta foi doação a seu povo nos últimos anos,
deste ex-guerrilheiro tupamaro e sempre simples e sensível chacarero,
conhecido por todos como Pepe Mujica.



Nota:

Fragmentos extraídos do texto sobre as "Eleições Uruguaias", das quais foi observador internacional representando o Partido dos Trabalhadores, Adão Villaverde.


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