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27/06/2011

América Latina, terra de esperança

Entrevista com István Mészáros, 
filósofo marxista húngaro, expoente do 
pensamento da esquerda contemporânea.


“Eu também tenho ressalvas à expressão “capitalismo avançado”. Os países capitalistas avançados são os mais destrutivos. Você chamaria isso de avançado? Não é avançado e em muitos aspectos nos traz de volta à condição da barbárie”

Quando você pensa na totalidade da América Latina, é impossível negar que houve tremendos avanços políticos. Houve mudanças significativas também em outros aspectos. A primeira vez que eu vim ao Brasil foi em 1983. Após uma conferência em João Pessoa, eu dava uma entrevista numa rádio local quando vi pela janela uma grande aglomeração de pessoas. Durante a pausa para os comerciais, fiquei sabendo que a razão daquela movimentação toda era que em algum lugar perto de João Pessoa havia protestos de pessoas famintas, que não tinham o que comer.

O programa de Lula de combate à fome foi uma resposta a situações como a que eu vi. Hoje, pelo o que sei, não existem mais protestos por comida no Brasil. O aumento do salário mínimo também foi uma contribuição importante. E mudanças também ocorreram na Venezuela, Bolívia, Paraguai e Argentina. A Argentina, por exemplo, deveria ser um daqueles milagres econômicos. Mas o milagre argentino terminou na total falência do País. Eles chegaram até a dolarizar sua economia, abandonaram sua moeda e foram sufocados por isso. Os protestos populares levaram à mudanças significativas na Argentina. Então, a América Latina é um continente onde várias experiências interessantes ocorreram e ainda estão em curso.

Agora, eu não afirmo com isso que a América Latina, assim como o restante do mundo, poderá se isentar de enfrentar esses problemas estruturais que eu já mencionei. E esse é o grande desafio para o futuro. A dimensão muito positiva é que na América Latina existem movimentos extremamente importantes como o campesinos e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). São movimentos sociais que não tem a perspectiva de implorar por favores políticos, mas que tomam a iniciativa e tentam controlar as coisas por si mesmo. Uma das características mais importantes desses movimentos é que eles tentem controlar a situação.

Na América Latina, as soluções também precisam levar em conta um esforço para remediar nossa relação com a natureza. Em um futuro próximo, por exemplo, nós teremos de considerar como colocar energia nos nossos carros. Se você produz carros, eles precisam de energia de alguma maneira. Ao mesmo tempo, nós multiplicamos cada vez mais o número de carros porque a produção não pode parar. Mas, o que precisamos fazer é perceber que a real necessidade das pessoas é o transporte, não os carros. Nós precisamos pensar em meios de transportes adequados, não carros individuais que agridem a natureza.

Eu a considero a América Latina, de longe, o continente mais esperançoso do mundo. Aqui, coisas interessantes vêm acontecendo desde os anos 70. A primeira reação aos movimentos que eclodiam, naquela época, foram as ditaduras. Ao menor sinal de problema, os norte-americanos encontravam um ditador. Eles enviavam os fuzileiros ou achavam algum general que pudesse fazer o trabalho por eles. Hoje os Estados Unidos não podem mais fazer isso, essa fase histórica passou, mas ainda carrega consequencias e repercussões.

Eu acredito que as reais transformações estruturais, que levaram séculos para acontecer do feudalismo para o capitalismo, não demorarão tanto para ocorrer. Por quê? Porque nós não temos séculos. Nosso tempo está se esgotando. E essas mudanças não podem ser pensadas como algo isolado ao “mundo subdesenvolvido”. Nós vivemos em um único mundo. Existem alguns conceitos mistificadores como “terceiro mundo”. Eu sempre rejeitei essa expressão. O que é o terceiro mundo? Eu apenas conheço um. Não é o “terceiro mundo”, mas uma parte integrada do mundo na qual os países são explorados. E a América Latina é o continente mais esperançoso onde as mudanças serão iniciadas, mas não poderão ser concluídas.

Globalização é um conceito utilizado apologeticamente. A realidade da globalização é que existe, na verdade, uma tendência para a integração econômica. Mas, politicamente, nada é resolvido. E hoje ainda prevalece a lógica de confrontar problemas políticos por meio da guerra, violência e destruição. É o que fazem os Estados Unidos. Isso é um grande absurdo porque nada na história da humanidade foi resolvido pela guerra.

Eu também tenho ressalvas à expressão “capitalismo avançado”. Os países capitalistas avançados são os mais destrutivos. Você chamaria isso de avançado? Não é avançado e em muitos aspectos nos traz de volta à condição da barbárie. Rosa Luxemburgo uma vez disse “socialismo ou barbárie”. Eu acrescentaria algo à frase de Rosa Luxemburgo: “barbárie, se tivermos sorte”. Porque a destruição total da humanidade é o que está em nosso horizonte. A tendência é sempre resolver os problemas com guerras e destruições. Na Primeira Guerra, os aliados saíram vitoriosos. Mas o que eles resolveram? Eles criaram Hitler. Por isso eu digo que as decisões estão sendo tomadas às costas das pessoas. Elas nunca antecipam as coisas. Elas nunca imaginam que depois da vitória vem a destruição.

Em 1871, na Comuna de Paris, o que aconteceu foi uma brutal destruição. Bismark, o chanceler alemão, que venceu as tropas francesas anos antes, quando viu as comunas tomando o poder em Paris, ordenou a libertação dos prisioneiros de guerra franceses para destruir a organização. O que aconteceu depois? Três impérios fizeram um pacto para lutar juntos contra esses tipos de distúrbios feitos pela população, caso acontecesse de novo. Isso não é mais possível. Um dos maiores estrategistas de guerra de todos os tempos, general Klausevits, disse uma vez: “a guerra é a continuação da política, só que por outros meios”. Hoje isso é inconcebível. Uma nova guerra mundial acabaria com a humanidade. Essa é a diferença histórica fundamental.

A América Latina é hoje uma das regiões onde se tem mais esperanças,
porque as pessoas estão tomando o controle das decisões, assumindo responsabilidades, depois de terem eliminado ditadores.
 E como vamos fazer essa transformação? 
Transformando as pessoas. 

A exploração da esmagadora maioria das pessoas por poucos não é mais aceito como era antes. No socialismo você não pode fazer isso. Você não aceita uma minoria que controla a política e a economia tomando todas as decisões. Seria um absurdo. Por isso temos que criar uma sociedade da igualdade substancial. A produção de mercadorias e o mercado devem ser as bases dessa equalização. Precisamos ir em direção a um sistema de igualdade substancial, com reorientação, com participação nos processos de decisão, com nossas decisões sobre o que queremos fazer para tornar nossas realizações mais justas, mais igualitárias. Ninguém precisa decidir isso por você.

Em “The Critique of The Gotha Program”, Marx fez a definição do que seriam os estágios inicial e final do socialismo. No primeiro, a distribuição seria feita a cada um de acordo com a sua contribuição para o total do produto social. Na fase avançada, seria de acordo com a sua capacidade ou necessidade. Agora, quem determina o que a gente precisa? Apenas uma pessoa, você mesmo. Hoje, 1% ou 2% da população controla de 40% a 60% dos recursos e riquezas da sociedade. Para mudar isso, será preciso uma cooperação das pessoas pelo mundo. Para produzir e distribuir conforme as necessidades, será preciso criar empresas cooperativas. Isso vai ser a base da sociedade do futuro. 

E não podemos ter certeza de que essas transformações vão ser feitas apenas dentro da lei. Não estamos enfrentando apenas leis humanas, mas as leis da natureza. A natureza está nos impondo seus limites. Por isso precisamos nos adaptar ao melhor uso dos recursos. Isso vai acontecer em pouco tempo – mas não no meu tempo, infelizmente. As pessoas estão começando a confrontar essa realidade, sobretudo na América Latina.

Entrevista concedida a Matheus Pichonelli e Ricardo Carvalho
           

Indicação de leitura:
Para além do Capital
István Mészáros
 
Co-edição: Boitempo/Ed. Unicamp     Preço: 87,00 

14/09/2010

Eu leio, tu lê, ele lê, nós lemos, vós leis, eles lêem...

"Livros não mudam o mundo, 
quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.”


Mário Quintana

03/11/2009

DOCUMENTÁRIOS DE VERDADE



A descoberta do final de semana, foi o Blog Documentários de Verdade, rico em variedade e raridades: http://docverdade.blogspot.com/

Eles procuram por, e postam links para, documentários que lutem contra a exploração laboral e infantil, a fome, a miséria, a guerra, a corrupção dos governos, a parcialidade da mídia, a venda dos Estados em favor das Corporações, a degradação ambiental, o preconteito racial, social e sexual, a crueldade com as pessoas e os animais e, claro, contra a injustiça social.

Tem coisa que não acaba mais, a quem interessar, vale muito a pena a imersão, então fica a dica e boas descobertas!!!


23/09/2009

Ô JOSUÉ, NUNCA VI TAMANHA DESGRAÇA

Esse trecho da música do Chico Science muitos devem conhecer e cantarolar....


(...)
Oh Josué, eu nunca vi tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça

Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura

Ai minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia Não consigo dormir
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar

Que eu desorganizando posso me organizar
Da lama ao caos
Do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana

(...)



Mas será que todos sabem quem é o tal do Josué?
É o Josué de Castro, autor do célebre livro a Geografia da Fome, escrito em 1946 ainda mantém-se atual e fornecedor de ricos subsídios para a análise do mapa da fome de nosso país, que passados mais de 60 anos não logrou de significativas alterações.

Sua obra representa um dos estudos mais profundos sobre a inseguraça alimentar presente no Brasil, sobretudo no Norte e no Nordeste. Nela, aponta que a falta de nutrientes na alimentação do nosso povo, provém de características climáticas, culturais e do próprio solo, próprios de cada região, além do motivo principal: a concentração de renda na mão de poucas pessoas.

Os dados divulgados na última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) no ano de 2006, pelo IBGE mostra que quase 14 milhões de brasileiros (cerca de 7,7% da população) viviam em domicílios nos quais a fome esteve presente ao menos um dia em 2004, revelou a primeira pesquisa sobre a Segurança Alimentar.

Relacionada diretamente à renda, a segurança alimentar consiste no direito ao acesso regular e permanente de alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais. Se considerarmos todos os níveis de "Insegurança alimentar", aproximadamente 72 milhões de pessoas (40%) estavam vulneráveis à fome em maior ou menor grau: tinham preocupação com a falta de dinheiro para comprar comida, perderam qualidade em sua dieta ou ingeriram alimentos em quantidade insuficiente.


Tais dados não nos permite uma comparação com a África, mas deveria acender um sinal de alerta na cabeça de todos. Frente a enxurraga de críticas que o Programa Social do Governo Lula - O FOME ZERO recebe, e que tem obtido relativo sucesso, muitos brasileiros preferem continuar a ignorar a existência da criticidade deste quadro, assim como crucificar toda e qualquer medida institucional de apoio às comunidades menos assistidas.

Dadas todas as latitudes e longitudes em que a fome esbarra, a maior razão a sua existência é sem dúvida econômica. A má distribuição da riqueza, juntamente com a falta de condições estruturais para fomento de uma agricultura mais familiar, mais cooperatizada, mais saudavél (leia-se orgânica e livre de agrotóxicos - que tanto agridem nosso organismo e destroe nossos solos) e menos voltada ao mega-mercado do agronegócio, que tráz consigo uma série de elementos destrutivos tanto social, como ambientalmente, mas que promete a geração de empregos, a inclusão social e o estrondoso lucro dos latifundiários desse nosso Brasilzão agrário por natureza, que há tempos almeja o título máximo do exportardor, denominando-o de "celeiro do mundo", mas que não consegue abstecer calóricamente e de maneira satisfatória a própria população.



Mas voltando ao Josué... na época em que sua obra fora escrita, o fenômeno da fome era encarado como natural e impossível de ser revertido. Por isso ele diz na introdução do livro: “Interesses e preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado”.

Ao quebrar este silêncio, o autor ganhou destaque internacional, recebeu duas indicações ao Nobel da Paz, sua obra foi traduzida para vários idiomas e recomendada pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), ocupando inclusive a presidência do referido órgão entre 1952 e 1956.
O principal legado de Josué de Castro foi o de popularizar as injustiças que acompanhavam o fênomeno, trazendo ao debate, problema que até então era ignorado.


No prefácio a 9ª edição da Geografia da Fome, o então executivo da FAO, André Mayer, escreveu que:

A fome - um problema tão velho quanto a própria vida.
Para os homens, tão velho quanto a humanidade.
É um desses problemas que p õem em jogo a própria sobrevivência da espécie humana, a qual para garantir sua perenidade, tem que lutra contra as doenças que a assaltam, abrigar-se das interpéries, defeder-se dos seus inimigos.
Antes de tudo, porém, precisa, dia após dia, encontrar com o que subsistir - comer.
E esta necessidade, é a fome que se encarrega de lembrá-la.
Sob o seu ferrão e para lutar contra ela, a humanidade aguçou seu gênio inventivo.
Ninguém o ignora.
E todo mundo sabe também que, nesse velho combate contra essa praga permanente, o homenm conseguiu apenas uma vitória incerta e precária. (...)


Abaixo alguns trechos do livro:

"Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens,

contra outros homens”

“Metade da população brasileira não dorme porque tem fome;

a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”

“Só há um tipo verdadeiro de desenvolvimento:

o desenvolvimento do homem”


Os países pobres são subdesenvolvidos não por razões naturais - pela força das coisas - mas por razões históricas - pela força das circunstâncias. Circunstâncias históricas desfavoráveis, principalmente o colonialismo político e econômico que manteve estas regiões à margem do processo da economia mundial em rápida evolução.

Na verdade, o subdesenvolvimento não é a ausência de desenvolvimento, mas o produto de um tipo universal de desenvolvimento mal conduzido. É a concentração abusiva de riqueza - sobretudo neste período histórico dominado pelo neocolonialismo capitalista que foi o fator determinante do subdesenvolvimento de uma grande parte do mundo: as regiões dominadas sob a forma de colônias políticas diretas ou de colônias econômicas.

Esta tremenda desigualde social entre os povos divide economicamente o mundo em dois mundos diferentes: o mundos dos ricos e o mundo dos pobres, o mundo dos países bem desenvolvidos e industrializados e o mundo dos países proletários e subdesenvolvidos. Este fosso econômico divide hoje a humanidade em dois grupos que se entendem com dificuldade: o grupo dos que não comem, constituido por dois terços da humanidade, e que habitam as áreas subdesenvolvidas do mundo, e o grupo dos que não dormem, que é o terço restante dos países ricos, e que não dormem com receio da revolta dos que não comem.

Ora, o problema do subdesenvolvimento não é exclusivo destes países; é antes um problema universal, que só pode ter soluções igualmente em escala universal. Viver na opulência, num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigoso, é um crime. A tensão social na qual se vive hoje é, na maior parte das vezes, o produto desta conhecida injustiça social, já que os povos dominados tomaram consciência da realidade sócio-econômica do mundo.

Cada vez se pergunta com mais insistência se desenvolver-se significa desumanizar-se, nesta frenética busca de riqueza, de acordo com a fórmula preconizada pelo ocidente de maximizar os lucros em vez de maximizar as energias mentais que enriquecem com mais rapidez a vida dos homens e podem dar-lhes muito mais felicidade.


Josué de Castro


Links úteis e muito bons:



31/07/2009

CAMINHOS DO FUTURO

"É bom lembrar que a esperança e a previsão,
embora inseparáveis, não são a mesma coisa (...)
e toda a previsão sobre o mundo real

tem que repousar em algum tipo de interferência
sobre o futuro
a partir daquilo que aconteceu no passado,
ou seja, a partir da história."

Eric Hobsbawn, Sobre História

Dica de Leitura:
SOBRE HISTÓRIA / ERIC HOBSBAWM / COMPANHIA DAS LETRAS

Eric Hobsbawm nasceu em 1917 em Alexandria no Egito, e desenvolveu seus estudos em Viena, Berlim, Londres e Cambridge. Escreveu, entre outros, A Era do Capital, A Era dos Extremos, A Era das Revoluções, A Era dos Impérios, Os Bandidos, Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo, Rebeldes Primitivos, O Breve Século XX 1914-1991, e Ecos da Marselhesa, todos publicados no Brasil.

Um dos últimos trabalhos de um dos mais respeitados historiadores marxistas ainda vivo, este livro na verdade é uma coleção de ensaios publicados pelo autor, muitos dos quais ainda inéditos, onde Hobsbawm analisa o significado e os compromissos envolvidos na tarefa da escrita da história.

Com clareza e erudição, Hobsbawm, refletindo o papel do historiador, analisa problemas pertinentes para atualidade como a indefinição das identidades nacionais na Europa e o uso ideológico do discurso histórico naquela realidade.

O livro ainda analisa o legado de 150 anos do Manifesto Comunista, a herança de Marx aos historiadores, a revolução bolchevique, as relações entre história e economia e a noção de progresso no conhecimento histórico, entre outras questões.

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