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20/06/2011

A Primavera Árabe e a Internet

 ONU declara que o acesso a Internet é um Direito Humano

Manifestantes anti Mubarak en la Plaza de la Liberación, Cairo. Enero, 2011 (AP Photo)
"Os governos e os poderosos tem medo da internet"
O alcance mundial da internet e sua capacidade de informar em tempo real,  mobiliza as populações gerando medo entre governos e poderosos.


Esta afirmação é Frank La Rue, relator especail da ONU para a Promoção e Proteção do Desenvolvimento da Liberdade de Opinião e Expressão. Este temor conduz ao aumento de restrições no uso da rede, mediante a introdução de complexas tecnologias para bloquear os conteúdos, controlar e identificar a ativistas e críticos, além da penalização de formas legítimas de expressão.

O jurista guatemalteco, La Rue, no início de junho apresentou seu informe ao Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), mencionando as técnicas de filtro de informação empregadas na China, mediante tecnologias que bloqueiam conteúdos com a menção a um só conceito por exemplo, “direitos humanos”.


O acesso aos conteúdos significa pluralidade e diversidade na recepção de informação através da Internet e também na difusão pela mesma via. Esse procedimento implica ausência total de censura, descreveu o especialista. Essa fortaleza da Internet e os levantes populares dos últimos meses no Oriente Médio e norte da  África, especialmente na  Tunizia y Egito, “atemorizando os políticos”. O relator defende que estes  levantes não foram “revoluções da Internet”, mas revoluções dos povos da Tunísia e Egito que usaram a internet. 


No entanto, as mudanças de estilos de governo e de desenvolvimento dependem das populações dos países, mas também fica claro que com a Internet elas contaram com meios mais rápidos para denunciar as violações aos direitos humanos, para enfrentar a impunidade e para divulgar ao mundo em tempo real o que estava acontecendo.

A Internet se converteu em um instrumento crucial para favorecer os direitos humanos e para facilitar a participação cidadã e, em conseqüência,  transforma-se em um fundamento da construção e fortalecimento da democracia. La Rue citou outra forma de censura: o uso do direito penal, como ocorre na Coréia do Sul, onde a legislação especializada tipifica a difamação como um delito com penas de até sete anos de prisão.

A função da Internet como meio para o exercício do direito a livre expressão somente pode perfeccionar-se se o Estado aplicar políticas para promover o acesso universal. Sem estes planos de ação, a Internet voltará a ser um instrumento tecnológico acessível apenas para certas elites, com lãs quais se perpetuará a brecha digital


Texto originalmente publicado em Periodismo Humano
Tradução e adaptação Graziele Saraiva


Para a Anistia Internacional:
Na Primavera Árabe a internet é faca de dois gumes. Uma vez que as redes socias que favoreceram os movimentos contra a ditadura nos países árabes podem ser usadas contra a população.

Facebook, Twitter e outras redes sociais desempenharam um papel considerável nos recentes movimentos contra a ditadura nos países árabes. Mas a internet também pode ser utilizada pelos líderes ameaçados para consolidar seu poder, afirmou recentemente a Anistia Internacional (AI). 

"Não há nenhuma dúvida de que as redes sociais tenham desempenhado um papel muito importante ao permitir que as pessoas se reúnam. Mas temos que ter sempre em mente que isso dá também, aos governos, a oportunidade de tomar medidas duras contra a população", afirmou o secretário-geral da Anistia Internacional, Salil Shetty. A declaração coincide com a publicação do informe anual sobre a situação dos direitos humanos no mundo.

"Os governos lutam para recuperar a iniciativa ou para utilizar essa tecnologia contra os militantes", afirma o documento. A organização internacional também advertiu que as empresas que fornecem acesso à internet, os operadores de telecomunicações e as redes sociais correm o risco de se tornar cúmplices dos regimes, se forem utilizadas para espiar as ações dos ativistas e militantes, cortar as redes de telefonia móvel ou bloquear o acesso à internet. "Não devem se tornar marionetes ou cúmplices de governos repressivos que desejam sufocar a liberdade de expressão e espiar seu povo.

Na China, onde as autoridades temem um contágio da Primavera Árabe, o controle da internet, que já era firme, foi reforçado. "É uma tentativa de prevenir uma revolta do estilo das do Oriente Médio. O governo estendeu a ofensiva contra os ativistas", adverte a Anistia. Mais de uma centena de ativistas, a maioria deles internautas ativos, desapareceram após um chamado lançado na rede em fevereiro convocando a população a se rebelar. Apesar do desenrolar "incerto" dos levantes em curso, a Anistia afirmou que a queda de ditadores e outras revoltas populares são motivo de otimismo para o futuro. "O gênio saiu da garrafa e as forças da repressão não podem voltar a prendê-lo", disse Salil Shetty.


31/05/2011

A hipocrisia do discurso de Obama sobre o Oriente Médio



A profunda hipocrisia do discurso do presidente Obama sobre o Oriente Médio onde mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região.

  

O presidente Obama foi ao ar em 18/05 para falar sobre as revoltas e os conflitos que se espalham pelo Oriente Médio. A hegemonia dos Estados Unidos sobre está região estratégica e rica em petróleo tem sido o pivô da política externa de Washington por décadas. Utilizando um sistema de poder e de regimes submissos, a par de suas vastas forças militares na região, os Estados Unidos vêm sustentando uma rede de ditaduras brutais e o regime israelense por décadas.

Este sistema de controle imperial vem sendo sacudido por levantes populares que começaram na Tunísia e se espraiaram para o Egito e outros países. Sobre esta conjuntura, a administração Obama se pronunciou na sede do Departamento de Estado como parte de um esforço para reafirmar a liderança norte-americana sobre a região ora em processo de célere mudança.

Valendo-se da retórica de democracia e liberdade para mascarar a responsabilidade do imperialismo norte-americano na duradoura opressão e sofrimento por que passam os povos do Oriente Médio, o discurso do presidente Obama foi uma demonstração de inescrutável hipocrisia.

Hipocrisia: o presidente Obama disse que “o maior recurso não explorado no Oriente Médio e Norte da África é o talento de seus povos”. 

Realidade: a estratégia dos Estados Unidos é baseada no controle do mais cobiçado recurso do Oriente Médio: dois terços das reservas mundiais conhecidas de petróleo. O governo de Washington forneceu bilhões de dólares e armou as mais brutais ditaduras do Oriente Médio durante décadas, uma prática a que a administração Obama deu ampla continuidade.



O governo dos Estados Unidos jamais bloqueou ou cortou os fundos destinados à ditadura de Mubarak ainda quando o regime matou mais de 850 pacíficos manifestantes. Mais de 5 mil civis no Egito foram acusados e presos desde 25 de janeiro em julgamentos conduzidos pelos militares egípcios. Os Estados Unidos continuam a enviar maciças somas aos militares egípcios a despeito da contínua repressão contra o povo.

Hipocrisia: O presidente Obama declarou: “a política dos Estados Unidos será de promover reformas em toda a região e de apoiar as transições para a democracia”. 

Realidade: Os únicos governos do Oriente Médio que foram objeto de invasão, sanções econômicas e derrubadas pelo governo dos Estados Unidos foram aqueles que seguem políticas independentes do controle, político, militar e econômico dos Estados Unidos.

Washington jamais impôs sanções econômicas à ditadura de Mubarak e somente se manifestou publicamente contra Mubarak quando a maré da revolução tornou-se irresistível. Do mesmo modo, os Estados Unidos apoiam a brutal monarquia da Arábia Saudita.

Hipocrisia: o presidente Obama advoga para os povos do Oriente Médio os “direitos fundamentais de expressar seu pensamento e ter acesso às informações”, afirmando que, “a verdade não pode ser escondida e a legitimidade dos governos vai depender em última instância de cidadãos ativos e bem informados”.

Realidade: a administração Obama exorbitou ao punir aqueles que queriam informar o público ao jogar luz sobre as atividades do governo norte-americano. Bradley Manning permanece em prisão sob ameaça de prisão perpétua, sendo mantido em brutais condições que levaram o Relator Especial sobre Tortura das Nações Unidas a buscar investigação.

O Departamento de Justiça está trabalhando à máxima velocidade para processar Julian Assange, do Wikileaks, por abrir documentos governamentais ao público, muitos dos quais expõem o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O governo Obama leva a cabo uma grande campanha, mais agressiva do que qualquer governo anterior, a fim de processar criminalmente informantes que exponham a verdade sobre ações governamentais ilegais. 

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Os Estados Unidos se opõem ao uso da violência e da repressão contra o povo da região.” 

Realidade: Os Estados Unidos sob Obama estão envolvidos na invasão, ocupação e bombardeio ao mesmo tempo de quarto países predominantemente muçulmanos: Iraque, Afeganistão, Líbia e Paquistão. Além do mais, o chefe de Estado, isoladamente o maior violador dos direitos humanos fundamentais e perpetuador da violência na região, é George W. Bush, cuja invasão ilegal do Iraque custou a vida de mais de um milhão de pessoas. 

A invasão de 19 de março de 2003 foi uma guerra de agressão contra um país que não constituía nenhuma ameaça aos Estados Unidos ou ao povo dos Estados Unidos. A invasão e ocupação do Iraque levaram à morte de mais árabes do que os que foram mortos por todas as ditaduras da região somadas. O presidente Obama chamou Osama Bin Laden de assassino em massa.
O 11 de setembro de 2001 foi de fato um repugnante crime que tirou a vida de milhares de trabalhadores inocentes, mas medindo-se na ordem de magnitude de vítimas fatais, o crime de assassinato em massa no Iraque não tem comparação. George W. Bush não só não foi preso por assassinato em massa do povo iraquiano como é tratado com honras pela administração Obama. 

Hipocrisia: Numa tentativa de apaziguar a opinião pública árabe, o discurso do presidente Obama dá a impressão que os Estados Unidos insistem com o retorno de Israel às fronteiras anteriores a 1967. Obama afirmou “precisamente devido à nossa amizade, é importante que eu diga a verdade: o status quo é insustentável e Israel também deve agir corajosamente em direção a uma paz duradoura”.

Realidade: A guerra de Israel contra o povo palestino seria impossível sem o apoio dos Estados Unidos, que segue constante. O maior destinatário individual da ajuda externa dos Estados Unidos é o Estado de Israel, que usa os 3 bilhões de dólares de receita anualmente para manter o sítio ao povo de Gaza, continuar a ocupação ilegal da Cisjordânia e evitar o retorno das famílias de 750 mil palestinos que foram expulsos de suas casas e aldeias da Palestina histórica em 1948.

As Nações Unidas, em várias resoluções, condenaram a invasão e ocupação israelense em 1967 de Gaza, da Cisjordânia e das Colinas de Golã da Síria. Longe de impor sanções econômicas, o presidente Obama prometeu a Israel um mínimo de 30 bilhões de dólares em ajuda militar para os próximos 10 anos, funcionando, portanto, como um parceiro da ocupação.

O discurso de Obama deixou claro também que os Estados Unidos apoiariam Israel na retenção de vastas faixas da Cisjordânia. Isto é o que ele quis dizer ao se referir a “permuta de terras”. Nos próximos dias, Obama manterá encontros privados com Benjamin Netanyahu e será o orador principal da conferência do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Com certeza, irá reforçar os fortes vínculos militares com Israel e a ajuda financeira.

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Nós apoiamos um conjunto de direitos universais. Esses direitos incluem liberdade de expressão; liberdade de reuniões pacíficas; liberdade de religião; igualdade entre homem e mulher sob o império da lei e liberdade para escolher seus próprios líderes – onde quer que você viva em Bagdá ou Damasco, Sanaa ou Teerã ... Continuaremos a insistir que esses direitos universais se apliquem tanto às mulheres quanto aos homens.” 

Realidade: Enquanto o governo dos Estados Unidos, junto com a Inglaterra e a França, os antigos colonizadores do Oriente Médio e da África, bombardeavam a Líbia com mísseis e bombas de última geração em nome da “proteção aos civis” e da “promoção da democracia”, o governo Obama apresentava a mais morna crítica à monarquia do Bahrein quando esta e a monarquia saudita matavam e prendiam manifestantes pacíficos no Bahrein.
Nenhuma sanção foi imposta ao Bahrein ou Arábia Saudita. A monarquia saudita é a suprema negação de democracia, privando as mulheres de todos os direitos, privando os trabalhadores de formar sindicatos e privando todos os setores da população de qualquer direito de livre manifestação, reunião ou imprensa. Nunca houve eleição na Arábia Saudita.

Porém as funções da monarquia saudita como cliente e submissa dos Estados Unidos não fazem dela objeto de sanções econômicas ou “mudança de regime” como o são os governos da Síria e da Líbia. A monarquia do Bahrein igualmente funciona como cliente dos Estados Unidos e permite que a 5ª Frota utilize o Bahrein como base naval. Eis o motivo porque Washington refere-se à monarquia como “um parceiro de longa data”.

Hipocrisia: O presidente Obama denunciou o governo do Irã, afirmando que “iremos continuar a insistir que o povo iraniano merece ter direitos universais” e condenou o que ele chamou de “programa nuclear ilícito” do Irã.

Realidade: Ele deixou de mencionar que foi a CIA junto com o serviço secreto britânico, que orquestrou a derrubada do governo democrático do Irã em 1953 e reinstalou a monarquia do xá. Eles derrocaram a democracia iraniana quando o Irã nacionalizou seu petróleo da AIOC/British Petroleum. Os Estados Unidos só romperam relações com o governo iraniano quando a ditadura do xá foi derrocada por uma revolução nacional popular.

Com relação às armas nucleares, o governo de Israel recusou-se a assinar o tratado de não-proliferação nuclear e acumulou 200 “ilícitas” armas nucleares. É claro, os Estados Unidos têm milhares de armas nucleares e permanece sendo o único país a ter usado armas nucleares, destruindo Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Hipocrisia: o presidente Obama diz ao mundo que os Estados Unidos partilham dos objetivos da revolução árabe, que “a repressão irá fracassar, que as tiranias irão cair, e que todo homem e mulher são dotados de certos direitos inalienáveis.”

Realidade: O governo dos Estados Unidos, seja ele comandado pelos republicanos ou democratas, vê o Oriente Médio, rico em petróleo, pelas lentes do império. Operando por meio de uma rede de regimes amigos que inclui Israel, Arábia Saudita, Jordânia, a ditadura de Mubarak no Egito, o xá do Irã até sua deposição em 1979 e outros regimes da região, suplementado por dezenas de milhares de tropas norte-americanas posicionadas em bases de toda a região, e por porta-aviões, os Estados Unidos almejam dominar e controlar a região responsável por dois terços das reservas mundiais de petróleo conhecidas.

Mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região. 



22/05/2011  Brian Becker e Mara Verheyden-Hilliard* | Washington
 
* Brian Becker é co-diretor do International Action Center. Mara Verheyden-Hilliard é ativista, promotora e co-fundadora da Partnership for Civil Justice. Ambos co-escreveram esse artigo para a organização ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism). Traduzido por Max Altman. 

15/03/2011

Documentário relata a trajetória da política paquistanesa Benazir Bhutto


(21/06/195327/12/2007)
foi uma política paquistanesa, duas vezes primeira-ministra de seu país, tornando-se a primeira mulher a ocupar um cargo de chefe de governo de um Estado muçulmano moderno.

Trajetória de vida e coragem admiráveis, uma das 
mulheres mais importantes do século XX, 
exemplo de resistência e afirmação feminina no mundo islâmico. 



O GNT exibiu ontem o inédito “Benazir Bhutto: Democracia é a Melhor Vingança”, dentro da programação dedicada às mulheres. O documentário relembra a história da política paquistanesa, duas vezes primeira-ministra de seu país. Benazir foi a primeira mulher a ocupar um cargo de chefe de governo de um Estado muçulmano moderno. Na produção, sua trajetória é descrita com depoimentos de sua família, amigos e rivais.

Filha do primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto, Benazir estudou em Harvard, nos EUA, e em Oxford, no Reino Unido. Após a execução do seu pai, em 1979, ela assumiu a liderança do Partido Popular do Paquistão ao lado da mãe. Depois da vitória do seu partido em 1988, ela se tornou a primeira premiê de um estado mulçumano, cargo que voltaria a ocupar em 1993. Em 2007, Benazir foi morta em um atentado suicida quando saia de um comício.


09/02/2011

Vencedores e Perdedores

Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

Por Immanuel Wallerstein
[08 de fevereiro de 2011 - 11h56]
 
 
A revolta árabe de 1916 foi liderada por Sharif Hussein Bin Ali em direção à independência árabe do império otomano. Os otomanos foram expulsos. No entanto, a grande revolta foi cooptada pelos britânicos e franceses. Depois de 1945, gradualmente, os vários Estados árabes se fizeram membros independentes da ONU. Mas, na maioria dos casos, sua independência foi cooptada pelos Estados Unidos, sucessor da Grã-Bretanha como controlador externo, tendo a França mantido um papel menor no Magrebe e no Líbano.

E a segunda revolta árabe já está cozinhando há alguns anos. No mês passado ela obteve uma injeção substancial com os bem-sucedidos levantes da juventude tunisiana. Quando existem jovens corajosos que arriscam sua vida para se levantar contra um regime autoritário e super-corrupto e são bem sucedidos, de fato, em derrubar o presidente, temos que aplaudir. Independentemente do que venha depois, foi um bom momento para a humanidade. A questão é sempre, o quê vem depois?

Na realidade são duas perguntas. Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

Não é fácil rebelar-se contra um regime autoritário. O regime tem armamento e dinheiro a sua disposição, e normalmente pode suprimir com facilidade as tentativas de desafiá-lo que ocorrem nas ruas. Atos simbólicos, como a auto-imolação do vendedor ambulante em um povoado tunisiano remoto, Mohamed Bouazizi, em protesto contra os extravagantes atos dos agentes do regime, podem incentivar outros a protestarem, como ocorreu na Tunísia. Mas para que o dito ato conduza à derrocada do regime, este deve ter fissuras.

Neste caso, é claro que existiam tais fissuras. Nem o exército nem a polícia estavam preparados para disparar contra os manifestantes, e deixaram esta tarefa para a guarda presidencial de elite. Não foi suficiente, e o presidente Zine el-Abidine Ben Ali e sua família tiveram que fugir, e só encontraram refugio na Arábia Saudita. Que havia fissuras no regime, isto fica claro pelo feito de que ao tentar sobreviver à tormenta, as principais figuras do partido de Ben Ali se certificaram de prender a figura chave da maquinaria repressiva, Abdelwahab Abdallah, garantindo que ele não os prendesse. Lembremos como foi que, depois da morte de Stalin, seus sucessores prenderam Lavrenti Beria de imediato, pela mesma razão.

Obviamente, depois que Ben Ali fugiu, o mundo inteiro aplaudiu, com a exceção de Kaddafi na Líbia e Berlusconi na Itália, que continuaram defendendo as virtudes do ditador. O lugar de onde vinha o principal respaldo exterior de Ben Ali, a França, se envergonhou o suficiente a ponto de confessar seus erros de juízo. Os Estados Unidos, tendo deixado a Tunísia nas supostamente seguras mãos dos franceses, não sentiram a necessidade de oferecer desculpas semelhantes.

Como todo o mundo observa, o exemplo da Tunísia deu um impulso para que em outras ruas árabes de outras partes fosse trilhado um caminho semelhante; os exemplos mais notáveis no momento estão no Egito, Iêmen e Jordânia. Enquanto escrevo, é pouco certo que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, seja capaz de sobreviver.

Quem são os vencedores e os perdedores? Não saberemos pelo menos nos próximos seis meses, talvez mais, quem chegou, de fato, ao poder na Tunísia, no Egito, na verdade em todo o mundo árabe. Os levantes espontâneos criam uma situação como a da Rússia de 1917 quando, segundo a famosa frase de Lênin, o poder está nas ruas, e portanto uma força decidida e organizada pode tomá-lo, que foi o que fizeram os bolcheviques.

A real situação política em cada um dos Estados árabes é diferente. Não há Estado árabe na atualidade que tenha um partido radical, laico, organizado, como os bolcheviques, que esteja pronto para tentar tomar o poder. Há vários movimentos liberais burgueses que gostariam de ter um papel maior, mas poucos parecem ter uma base importante. Os movimentos mais organizados são os islamitas. Mas, estes movimentos não têm uma só cor. Suas versões de um Estado islâmico vão dos relativamente tolerantes com outros grupos, como o que existe agora na Turquia, à severa versão da sharia (como os talibãs executam no Afeganistão), com variedades intermediárias como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Mas o que acontece com os poderes externos, que estão profundamente envolvidos em tentar controlar a situação? O principal ator externo é os Estados Unidos. Um segundo ator é o Irã. Todos os outros – Turquia, França, Grã-Bretanha, Rússia e China – são menos importantes sem deixarem de ser relevantes.

O grande perdedor da segunda revolta árabe é claramente os Estados Unidos. Constata-se isso com a incrível hesitação do governo estadunidense neste momento. Os EUA (como qualquer outra das potências importantes do mundo) colocam um critério acima de todos os demais: os regimes que são amigáveis. Washington quer estar do lado dos vencedores, sempre e quando o vencedor não seja hostil. Que fazer então numa situação como a do Egito, que hoje é virtualmente um Estado patrocinado pelos Estados Unidos? Washington se encontra reduzido a fazer chamados públicos em nome de mais democracia, de que não haja violência, e de negociações. Depois de grandes encenações, parecem ter dito ao exército egípcio para que não envergonhe os Estados Unidos, disparando contra pessoas demais. Porém, poderá Mubarak sobreviver sem disparar contra muita gente?

A segunda revolta árabe ocorre em meio a uma caótica situação mundial na qual imperam três características: uma queda dos padrões de vida de dois terços da população mundial, aumentos escandalosos nos salários atuais de uma camada elevada relativamente pequena e uma séria decadência do poder efetivo da assim chamada superpotência, Estados Unidos. A segunda revolta árabe, não importa como resulte, irá corroer ainda mais o poderio estadunidense, especialmente no mundo árabe, precisamente porque a única base segura de popularidade políticas nestes países, hoje, é a oposição a que Washington interfira em seus assuntos. Mesmo para aqueles que normalmente querem o envolvimento dos Estados Unidos, e dependem deste, torna-se perigoso continuar com esta postura.

O maior vencedor é o Irã. Sem dúvida o regime iraniano é visto com considerável suspeita, em parte porque não é árabe e em parte porque é xiita. No entanto, foi a política estadunidense que deu ao Irã seu presente maior, a derrocada de Saddam Hussein. Saddam era o mais feroz e eficaz inimigo do Irã. Os líderes iranianos provavelmente proferem alguma bênção diária para George W. Bush por seu maravilhoso presente. Construíram sobre este golpe de sorte uma inteligente política com a qual demonstraram estar prontos para dar respaldo a movimentos não xiitas tais como Hamas, sempre que confrontarem fortemente Israel e a intromissão estadunidense na região.

Um vencedor menor é a Turquia, que foi uma maldição para as forças populares no mundo árabe pela dupla razão de que é herdeira do império otomano e uma aliada próxima dos Estados Unidos. O atual regime eleito popularmente, um movimento islamita que não busca impor a lei da sharia sobre toda a população, mas sim, unicamente, o droit de cité para a conformidade islâmica, moveu-se em direção a apoiar a segunda revolta árabe, ainda com um risco de comprometer suas anteriores boas relações com Israel e Estados Unidos.
E, é claro, os maiores vencedores desta segunda revolta árabe serão, com o tempo, os povos árabes.

Publicado por Rebelión. Foto por Epa/Lucas Dolega.

Samir Amin e a "revolução" no Egito

Reproduzo artigo do intelectual egípcio Samir Amin, publicado originalmente no blog de Atilio Boron:

O Egito é a pedra angular do plano norte-americano para controlar o planeta. Washington não vai tolerar nenhuma tentativa do Egito de acabar com a sua total submissão aos interesses imperiais, coisa que Israel também necessita para prosseguir colonizando o que resta da Palestina.

Este é o objetivo excludente de Washington em seu “envolvimento” para impulsionar uma “transição suave” no Egito. Tendo em vista esta situação, os EUA poderiam considerar que Mubarak poderia renunciar e o recém designado vice-presidente, Omar Solaimám, chefe da Inteligência militar, ficaria em seu lugar. Mas o exército foi muito cuidadoso em não ficar preso à repressão, preservando a sua imagem.

Então, aparece Baradei. Ele, porém, é mais conhecido fora do que dentro do Egito, mas este defeito poderia ser corrigido rapidamente. Baradei é um “liberal”, sem idéias de como conduzir a economia e, por isto mesmo, não pode compreender que é precisamente por causa dela que ocorreu a atual devastação social. É um democrata, no sentido de querer “eleições genuínas” e em respeitar a lei (por exemplo: parar as prisões e as torturas), nada mais.

Não é impossível que Baradei possa ser um aliado na transição. Mas nem o exército, nem as agências de inteligência estão dispostos a abandonar a sua posição dominante que desfrutam perante a sociedade. Baradei aceitaria isto?

No caso de “êxito” e “eleições”, a Irmandade Muçulmana será a principal força parlamentar. Aparentemente, os EUA veriam com satisfação este resultado porque caracterizaram a IM como “moderada”, dócil, disposta a aceitar a submissão do país à estratégia norte-americana, deixando que Israel continue a ocupar a Palestina.

A IM também é a favor da economia de mercado, que torna o Egito um país totalmente dependente do exterior. Ela é, de fato, a principal sócia e aliada da burguesia “compradora”, considerada um feudo para o imperialismo. A IM foi contra as greves dos trabalhadores e contra as lutas dos camponeses pela propriedade da terra.

O Plano dos EUA para o Egito é semelhante ao modelo paquistanês: uma combinação de “Islã político” com a Inteligência militar. A IM poderia compensar seu apoio a estas políticas sendo, precisamente, “não-moderada” em sua conduta diante de outras religiões. Poderia um sistema desse tipo merecer um certificado de “democracia”?

O movimento atual tem como seus componentes fundamentais a juventude urbana, com estudos e diplomas, mas sem trabalho, apoiada por segmentos das classes médias educadas e democratas. O novo regime poderia, talvez, fazer algumas concessões. Por exemplo: garantir o recrutamento para servir em aparatos estatais, mas dificilmente mais do que isso.

Claro que as coisas poderiam mudar se a classe trabalhadora e os movimentos campesinos entrassem em cena. Mas tal coisa não parece estar na agenda. Na medida em que o sistema econômico for manejado de acordo com as regras da “globalização neoliberal”, nenhum dos problemas que deram origem ao atual movimento de protesto poderá ser realmente solucionado.

* Tradução de Sandra Luiz Alves


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