A profunda hipocrisia do discurso do presidente Obama sobre o Oriente Médio onde mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região.
O presidente Obama foi ao ar em 18/05 para falar sobre as revoltas e os conflitos que se espalham pelo Oriente Médio. A hegemonia dos Estados Unidos sobre está região estratégica e rica em petróleo tem sido o pivô da política externa de Washington por décadas. Utilizando um sistema de poder e de regimes submissos, a par de suas vastas forças militares na região, os Estados Unidos vêm sustentando uma rede de ditaduras brutais e o regime israelense por décadas.
Este sistema de controle imperial vem sendo sacudido por levantes populares que começaram na Tunísia e se espraiaram para o Egito e outros países. Sobre esta conjuntura, a administração Obama se pronunciou na sede do Departamento de Estado como parte de um esforço para reafirmar a liderança norte-americana sobre a região ora em processo de célere mudança.
Valendo-se da retórica de democracia e liberdade para mascarar a responsabilidade do imperialismo norte-americano na duradoura opressão e sofrimento por que passam os povos do Oriente Médio, o discurso do presidente Obama foi uma demonstração de inescrutável hipocrisia.
Hipocrisia: o presidente Obama disse que “o maior recurso não explorado no Oriente Médio e Norte da África é o talento de seus povos”.
Realidade: a estratégia dos Estados Unidos é baseada no controle do mais cobiçado recurso do Oriente Médio: dois terços das reservas mundiais conhecidas de petróleo. O governo de Washington forneceu bilhões de dólares e armou as mais brutais ditaduras do Oriente Médio durante décadas, uma prática a que a administração Obama deu ampla continuidade.
O governo dos Estados Unidos jamais bloqueou ou cortou os fundos destinados à ditadura de Mubarak ainda quando o regime matou mais de 850 pacíficos manifestantes. Mais de 5 mil civis no Egito foram acusados e presos desde 25 de janeiro em julgamentos conduzidos pelos militares egípcios. Os Estados Unidos continuam a enviar maciças somas aos militares egípcios a despeito da contínua repressão contra o povo.
Hipocrisia: O presidente Obama declarou: “a política dos Estados Unidos será de promover reformas em toda a região e de apoiar as transições para a democracia”.
Realidade: Os únicos governos do Oriente Médio que foram objeto de invasão, sanções econômicas e derrubadas pelo governo dos Estados Unidos foram aqueles que seguem políticas independentes do controle, político, militar e econômico dos Estados Unidos. Washington jamais impôs sanções econômicas à ditadura de Mubarak e somente se manifestou publicamente contra Mubarak quando a maré da revolução tornou-se irresistível. Do mesmo modo, os Estados Unidos apoiam a brutal monarquia da Arábia Saudita.
Hipocrisia:o presidente Obama advoga para os povos do Oriente Médio os “direitos fundamentais de expressar seu pensamento e ter acesso às informações”, afirmando que, “a verdade não pode ser escondida e a legitimidade dos governos vai depender em última instância de cidadãos ativos e bem informados”.
Realidade:a administração Obama exorbitou ao punir aqueles que queriam informar o público ao jogar luz sobre as atividades do governo norte-americano. Bradley Manning permanece em prisão sob ameaça de prisão perpétua, sendo mantido em brutais condições que levaram o Relator Especial sobre Tortura das Nações Unidas a buscar investigação.
O Departamento de Justiça está trabalhando à máxima velocidade para processar Julian Assange, do Wikileaks, por abrir documentos governamentais ao público, muitos dos quais expõem o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio.
O governo Obama leva a cabo uma grande campanha, mais agressiva do que qualquer governo anterior, a fim de processar criminalmente informantes que exponham a verdade sobre ações governamentais ilegais.
Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Os Estados Unidos se opõem ao uso da violência e da repressão contra o povo da região.”
Realidade:Os Estados Unidos sob Obama estão envolvidos na invasão, ocupação e bombardeio ao mesmo tempo de quarto países predominantemente muçulmanos: Iraque, Afeganistão, Líbia e Paquistão. Além do mais, o chefe de Estado, isoladamente o maior violador dos direitos humanos fundamentais e perpetuador da violência na região, é George W. Bush, cuja invasão ilegal do Iraque custou a vida de mais de um milhão de pessoas.
A invasão de 19 de março de 2003 foi uma guerra de agressão contra um país que não constituía nenhuma ameaça aos Estados Unidos ou ao povo dos Estados Unidos. A invasão e ocupação do Iraque levaram à morte de mais árabes do que os que foram mortos por todas as ditaduras da região somadas. O presidente Obama chamou Osama Bin Laden de assassino em massa.
O 11 de setembro de 2001 foi de fato um repugnante crime que tirou a vida de milhares de trabalhadores inocentes, mas medindo-se na ordem de magnitude de vítimas fatais, o crime de assassinato em massa no Iraque não tem comparação. George W. Bush não só não foi preso por assassinato em massa do povo iraquiano como é tratado com honras pela administração Obama.
Hipocrisia: Numa tentativa de apaziguar a opinião pública árabe, o discurso do presidente Obama dá a impressão que os Estados Unidos insistem com o retorno de Israel às fronteiras anteriores a 1967. Obama afirmou “precisamente devido à nossa amizade, é importante que eu diga a verdade: o status quo é insustentável e Israel também deve agir corajosamente em direção a uma paz duradoura”.
Realidade: A guerra de Israel contra o povo palestino seria impossível sem o apoio dos Estados Unidos, que segue constante. O maior destinatário individual da ajuda externa dos Estados Unidos é o Estado de Israel, que usa os 3 bilhões de dólares de receita anualmente para manter o sítio ao povo de Gaza, continuar a ocupação ilegal da Cisjordânia e evitar o retorno das famílias de 750 mil palestinos que foram expulsos de suas casas e aldeias da Palestina histórica em 1948.
As Nações Unidas, em várias resoluções, condenaram a invasão e ocupação israelense em 1967 de Gaza, da Cisjordânia e das Colinas de Golã da Síria. Longe de impor sanções econômicas, o presidente Obama prometeu a Israel um mínimo de 30 bilhões de dólares em ajuda militar para os próximos 10 anos, funcionando, portanto, como um parceiro da ocupação.
O discurso de Obama deixou claro também que os Estados Unidos apoiariam Israel na retenção de vastas faixas da Cisjordânia. Isto é o que ele quis dizer ao se referir a “permuta de terras”. Nos próximos dias, Obama manterá encontros privados com Benjamin Netanyahu e será o orador principal da conferência do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Com certeza, irá reforçar os fortes vínculos militares com Israel e a ajuda financeira.
Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Nós apoiamos um conjunto de direitos universais. Esses direitos incluem liberdade de expressão; liberdade de reuniões pacíficas; liberdade de religião; igualdade entre homem e mulher sob o império da lei e liberdade para escolher seus próprios líderes – onde quer que você viva em Bagdá ou Damasco, Sanaa ou Teerã ... Continuaremos a insistir que esses direitos universais se apliquem tanto às mulheres quanto aos homens.”
Realidade: Enquanto o governo dos Estados Unidos, junto com a Inglaterra e a França, os antigos colonizadores do Oriente Médio e da África, bombardeavam a Líbia com mísseis e bombas de última geração em nome da “proteção aos civis” e da “promoção da democracia”, o governo Obama apresentava a mais morna crítica à monarquia do Bahrein quando esta e a monarquia saudita matavam e prendiam manifestantes pacíficos no Bahrein.
Nenhuma sanção foi imposta ao Bahrein ou Arábia Saudita. A monarquia saudita é a suprema negação de democracia, privando as mulheres de todos os direitos, privando os trabalhadores de formar sindicatos e privando todos os setores da população de qualquer direito de livre manifestação, reunião ou imprensa. Nunca houve eleição na Arábia Saudita.
Porém as funções da monarquia saudita como cliente e submissa dos Estados Unidos não fazem dela objeto de sanções econômicas ou “mudança de regime” como o são os governos da Síria e da Líbia. A monarquia do Bahrein igualmente funciona como cliente dos Estados Unidos e permite que a 5ª Frota utilize o Bahrein como base naval. Eis o motivo porque Washington refere-se à monarquia como “um parceiro de longa data”.
Hipocrisia: O presidente Obama denunciou o governo do Irã, afirmando que “iremos continuar a insistir que o povo iraniano merece ter direitos universais” e condenou o que ele chamou de “programa nuclear ilícito” do Irã.
Realidade:Ele deixou de mencionar que foi a CIA junto com o serviço secreto britânico, que orquestrou a derrubada do governo democrático do Irã em 1953 e reinstalou a monarquia do xá. Eles derrocaram a democracia iraniana quando o Irã nacionalizou seu petróleo da AIOC/British Petroleum. Os Estados Unidos só romperam relações com o governo iraniano quando a ditadura do xá foi derrocada por uma revolução nacional popular.
Com relação às armas nucleares, o governo de Israel recusou-se a assinar o tratado de não-proliferação nuclear e acumulou 200 “ilícitas” armas nucleares. É claro, os Estados Unidos têm milhares de armas nucleares e permanece sendo o único país a ter usado armas nucleares, destruindo Hiroshima e Nagasaki em 1945.
Hipocrisia:o presidente Obama diz ao mundo que os Estados Unidos partilham dos objetivos da revolução árabe, que “a repressão irá fracassar, que as tiranias irão cair, e que todo homem e mulher são dotados de certos direitos inalienáveis.”
Realidade: O governo dos Estados Unidos, seja ele comandado pelos republicanos ou democratas, vê o Oriente Médio, rico em petróleo, pelas lentes do império. Operando por meio de uma rede de regimes amigos que inclui Israel, Arábia Saudita, Jordânia, a ditadura de Mubarak no Egito, o xá do Irã até sua deposição em 1979 e outros regimes da região, suplementado por dezenas de milhares de tropas norte-americanas posicionadas em bases de toda a região, e por porta-aviões, os Estados Unidos almejam dominar e controlar a região responsável por dois terços das reservas mundiais de petróleo conhecidas.
Mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região.
22/05/2011 Brian Becker e Mara Verheyden-Hilliard* | Washington
* Brian Becker é co-diretor do International Action Center. Mara Verheyden-Hilliard é ativista, promotora e co-fundadora da Partnership for Civil Justice. Ambos co-escreveram esse artigo para a organização ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism). Traduzido por Max Altman.
Reproduzo nas próximas linhas uma espécie de "resumo" de Slavoj Zizek – algumas ideias do seu pensamento político e filosófico, originalmente puvlicado pelo Blog portugês Pimenta Negra.
Slavoj Zizek é hoje em dia uma vedeta do pensamento crítico contemporâneo. De Buenos Aires a Paris, passando por New York, New Delhi ou Ljubljana (a cidade onde nas céu), as multidões correm a assistir às suas conferências. Esta atracção deve-se em parte ao estilo do filósofo esloveno. Que mistura referências absconsas de Schelling ou Lacan a exemplos retirados da cultura popular – cinema de Hollywood, romance negro ou ficção científica, blagues – tudo isso recheado com citações semi-provocadoras de Stalin e Mão. Esta estratégia intelectual visa a escurecer as fronteiras entre a cultura «legítima» e a cultura «popular». Zizek é o objecto ou protagonista de vários documentários, um dos quais é o notável Pervert’s Guide to Cinema (2006), no qual ele apresenta as suas análises parodiando cenas clássicas da história do cinema. Uma discoteca de Buenos Aires já tem o seu nome.
Assista ao trailler oficial:
Slavoj Zizek – breve resumo do seu pensamento
S. Zizek é um filósofo muito cosmopolita. Realizou uma parte dos seus estudos em França na Universidade de Paris-VIII, sob a direcção de Jacques-Alain Miller (o genro e o legatário intelectual de Lacan), com o qual também fez psicanálise. Escreve e publica em inglês. E é dos poucos pensadores actuais que veio da Europa do Leste.
Um aspecto determinante do pensamento de Zizek é a sua defesa do cogito cartesiano. The Ticklish Subject é uma das suas mais importantes obras, subintitulada «O centro ausente da ontologia política» começa com a seguinte declaração: « Um espectro paira sobre a universidade ocidental… o espectro do sujeito cartesiano.» O filósofo assimila a questão do «sujeito» ao espectro do comunismo que abre o Manifesto Comunista de Marx e Engels. Isto significa que se trata de um ponto importante …
Sabe-se que Descartes formulou um célebre enunciado filosófico ao dizer « Cogito, ergo sum » (Penso, logo existo). A ideia de um sujeito soberano, transparente a si próprio e racional é um dos fundamentos da modernidade. Ela encontra-se não somente no coração do projecto da Luzes, mas está subentendida igualmente num grande número de movimentos emancipatórios do séc. XIX, entre os quais o liberalismo, o marxismo e o anarquismo. Nunca faltaram críticos a esta concepção do sujeito, quer viessem do interior da tradição filosófica (Nietzsche por ex.) quer correntes como o feminismo que denunciou desde muito cedo o carácter de género do cogito.
O Iluminismo e a teoria do sujeito que o acompanha foram novamente questionadas depois da II Guerra Mundial. As atrocidades cometidas então serviram para a modernidade reflectir-se nela própria. Os representantes da Escola de Francfort – Adorno et Horkheimer – consideraram as câmaras de gás como a expressão última da racionalidade instrumental moderna. Depois de ter servido para a emancipação, a razão ter-se-á voltado contra ela própria, e tornou-se ela própria em cúmplice dos piores crimes contra a humanidade. O estruturalismo e pós-estruturalismo, ainda que não tematizam, ou pouco, a barbárie moderna, desenvolvem ainda assim uma crítica do humanismo. O anti-humanismo teórico de Althusser ou a « morte do homem » profetizada por Foucault ai estão para o demonstrar. A perspectiva pós-estruturalista que domina a «universidade ocidental», para retomar a expressão de Zizek, considera o sujeito como uma entidade descentrada. Segundo esta visão existe uma multiplicidade irredutível de posições subjectivas, mas nenhum centro unificador.O cogito ter-se-á literalmente desintegrado. A descoberta do inconsciente por Freud e a importância conferida à linguagem na filosofia na segunda metade do séc. XX consolidaram esta tendência. Para retomar uma fórmula de Jacques Derrida o sujeito passou a ser entendido como uma «função da linguagem».
S. Zizek opõe-se à desintegração do sujeito. Isto não o leva a preconizar um regresso puro e simples ao humanismo moderno, sob a forma cartesiana ou outra .S. Zizek prefere dar um tratamento lacaniano ao cogito . Aliás, todas as coisas são interpretadas à luz das categorias propostas por Lacan. Para S. Zizek, o sujeito não é uma substância , nem sequer pensante como dizia Descartes . Não é uma entidade real, mas antes um «vazio», feito de pura «negatividade». O sujeito aparece na interface do «Real» e do «Simbólico». Estes dois conceitos de Zizek, emprestados de Lacan, são cruciais à sua abordagem. O real é incognoscível para nós: ele designa o mundo antes de toda a categorização ou classificação, isto é, é pré-linguagem. O Simbólico é, para ele, a instância do ordenamento do Real. Quando se fala vulgarmente da «realidade» é do Simbólico que falamos, uma vez que o Real não nos é acessível. O Simbólico representa a «morte da coisa» diz Lacan, no sentido em que aboliu a coisa enquanto coisa tornando-se inteligível( deixando assim de ser uma coisa saída do Real). O Real nunca se deixa simbolizar completamente, há sempre qualquer coisa que resiste.
O que a psicanálise chama de «traumatismo» designa os casos de intrusão ou do ressurgimento brutal do real na ordem do Simbólico. Uma tal intrusão é sempre possível e é susceptível de perturbar o Simbólico. O Simbólico, deste ponto de vista, não é forçosamente aberto. Persiste no tempo, mas sob a condição do ressurgimento de um Real conflitual.
O sujeito forma-se segundo Zizek na distância que separa o Real do Simbólico. Esta distância supõe que o Simbólico difere do Real, o que permite o aparecimento da subjectividade . Se o Real e o Simbólico fossem idênticos, ou se o Simbólico estivesse fechado sobre si mesmo, nenhuma posição subjectiva seria concebível. Segundo Zizek,o sujeiro é um «mediador evanescente» (vanishing mediator). Este conceito foi repescado pelo filósofo a Fredric Jameson. Neste último, ele designa todo o fenómeno que permite o aparecimento de um outro fenómeno, e que desaparece depois de ter realizado aquela tarefa. Jameson usa este conceito na sua interpretação da tese de Max Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. Para Weber (relido por Jameson), o protestantismo constitui a condições da emergência do capitalismo. Todavia, uma vez nascido, este acelera o desaparecimento do protestantismo, já que o capitalismo favorece o processo de secularização. O protestantismo seria pois um «mediador evanescente» para o capitalismo.
Para S. Zizek, o sujeito tem uma estrutura análoga. Na medida em que é incognoscível, o Real é experimentado como «perda» pelo sujeito. Face a este nada, e a fim de não cair na loucura, o sujeito constrói o Simbólico. Por isso, ele exterioriza-se numa linguagem, sendo a «palavra» a instância pela qual a simbolização é desencadeada:
« […] Ao pronunciar uma palavra, o sujeito empurra o seu ser para fora de si; ele coagula o nó do seu ser (the core of his being) num signo exterior. Através de um signo(verbal) eu encontro-me fora de mim mesmo, eu coloco a minha unidade fora de mim mesmo, num significante que me representa.» Ao exteriorizar-se o sujeito cria o objecto (o Simbólico) mas acaba por isso mesmo de se encontra frente a ele próprio, uma vez que se exteriorizou-se. A separação entre sujeito e objecto é pois abolida, e as duas instâncias são inextrincavelmente misturadas. Isto implica, entre outras coisas, que o lugar do sujeito permanece vazio. Por esse facto, ele poderá sucessiva ou simultaneamente ser ocupado ou reivindicado pelos mais diversos sujeitos. Tal como J. Rancière, S. Zizek considera que o sujeito não é um colectivo concreto, realmente existente. Ele é antes a condição para que individualidades ou colectivos concretos se possam formar. Mas, para isso, o seu lugar deve ficar formalmente vazio.
Um corolário da teoria do sujeito de Zizek é a sua concepção de ideologia. Classicamente, a ideologia designa a separação existente entre uma realidade e a maneira como os indivíduos a representam, de forma errónea ou «ideológica». Esta deformação pode ser explicada pela posição de classe do indivíduo ou por uma razão, mas que leva, de qualquer modo, a significar uma perspectiva entre outras. A crítica filosófica e política dirige-se a essa distância que separa as duas instâncias. A sua função é de chamar a atenção para as vítimas de uma ideologia sobre o facto das suas representações da realidade serem erróneas. Segundo o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que serve aqui de ponto de partida para Zizek, este modelo clássico de ideologia deixou de funcionar nas sociedades pós-modernas. A explicação reside em que, hoje, os indivíduos sabem perfeitamente que o discurso que lhes é servido pelos media e pela classe política é falacioso. Eles não são idiotas, o que significa para Sloterdijk que a nossa época é a de um cinismo generalizado, que sucedeu à era das ideologias. Esse cinismo levanta o problema da eficácia da crítica hoje em dia. Se todo o mundo sabe que a representação dominante da realidade não é «verdadeira» realidade, então será que a crítica ainda tem uma razão de ser?
Segundo Zizek a teoria de ideologia de Sloterdijk é errada, o mesmo se passando como o seu diagnóstico sobre a época em que vivemos. Esta está longe de ser pós-ideológica. É verdade que o cinismo está largamente espalhado. No entanto, é errado pensar que um tal cinismo, apesar de generalizado, bastará para justificar a existência de uma época pós-ideológica. E a explicação é que a ideologia não é uma questão de representação, mas antes de actos e acções.
O conhecido argumento de Pascal permitirá clarificar este ponto. Segundo esse argumento, baseado num cálculo de utilidade, no sentido da economia neoclássica, é sempre vantajoso para o indivíduo acreditar em Deus, porque se Deus existir, o benefício da crença é imenso (paraíso), comparado com o imenso custo da falta de crença (inferno). Por outro lado, pouco importa que se acredite ou não em Deus se ele não existe. Todo o ser razoável deve por consequência acreditar em Deus. O problema é que, bem entendido, a crença não se encomenda. Não se acredita na vontade, o que realmente é necessário é possuir uma verdadeira fé. A resposta de Pascal ao problema é conhecida: «Orai e obedecei, a fé virá de seguida.»
Este argumento é frequentemente interpretado como demonstrativo da influência dos comportamentos de um indivíduo sobre os seus estados mentais. A oração interioriza o seu próprio conteúdo, que se transforma progressivamente, graças à repetição, em crença autêntica. Mas uma outra interpretação é possível segundo Zizek. Para este, o que mostra o argumento de Pascal não é que os nossos comportamentos são susceptíveis de produzir representações no nosso espírito. O que ele realmente mostra é que possuímos frequentemente representações antes mesmo de saber que nós as possuímos. Contrariamente, ao que pensa o indivíduo que se ajoelha para rezar, este já antes de se ajoelhar já acredita em Deus. Quando ele pensa que começa a acreditar, ele mais não faz na realidade do que reconhecer uma crença que já estava presente nele. Pois o que conta não é o estado mental, mas o acto. É por isso que a nossa época continua saturada de ideologias. Ainda que o cinismo reine, os indivíduos continua a comportarem-se como se as ideologias continuassem em vigor.
A teoria dos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) de Althusser pode ser interpretada à luz deste argumento. Althusser distingue as AIE (Escola, Igreja, Media, Família) dos Aparelhos Repressivos do Estado (policia, exército, prisões). Os AIE têm por função garantir a adesão à ordem existente pela via ideológica «naturalizando» esta ordem aos olhos dos que a sofrem. Ora, para Zizek, os AIE produzem uma adesão ao sistema antes mesmo que o indivíduo se aperceba deles. Trata-se de uma crença anterior. O sintoma que revela a existência desta pré-crença é a actividade do indivíduo, a qual testemunha a sua adesão à ordem existente, que está tão incrustada nele quanto o cinismo nele presente.
S. Zizek reclama-se do marxismo, o que é relativamente raro num intelectual dos países do leste europeu, apesar de ter sido um dissidente no seu país durante a era soviética. Uma consequência deste seu posicionamento é que ele defende a tese da determinação «em última instância» pela economia, que se encontra presente, sob diversas formas, no seu pensamento.Mais precisamente, ele sustenta que a forma de opressão no domínio económico, ou seja, a exploração, tem primazia sobre as outras formas de dominação.
Para além da sua vontade de reabilitar o sujeito cartesiano, esta sua tese leva Zizek a opor-se à doxa em vigor na «universidade ocidental». Note-se que a tese da determinação da superestrutura pela infraestrutura dominou o pensamento crítico durante muito tempo, enquanto o marxismo manteve a hegemonia naquele pensamento. Mas a partir dos anos 1970 a ideia da dominação tornou-se plural, ao ponto de se ter tornado a nova doxa. Vários factores contribuíram para esta evolução. Com efeito, desde então, assistiu-se a uma proliferação das «frentes secundárias» que enfraqueceu a centralidade conferida até então ao confronto entre o capital e o trabalho. Mais a mais, as transformações sociotécnicas profundas, tais como a emergência dos media de massas, colocaram a cultura no coração da vida (pós)moderna. A sociologia de Pierre Bourdieu é típica desta evolução. Bourdieu defende que o mundo social é composto de diferentes «campos » sociais que gozam cada qual de uma «autonomia relativa» em relação uns aos ouros. Isto supõe que existem capitais particulares em cada um deles, e que nenhum deles é determinante que os outros.
Segundo S. Zizek, os pensamentos críticos foram demasiado longe na pluralização das formas de dominação, a tal ponto que se tornaram incapazes de compreender a especificidade do capitalismo enquanto sistema. A dominação é plural. Mas oque confere a particularidade ao capitalismo é que todas as formas de dominação subentendidas por um fenómeno, que lhes dá inclusive uma «coloração», a saber: a acumulação do capital.
Os pensadores críticos contemporâneos reconhecem certamente a existência da exploração económica. Mas eles consideram que se trata de um tipo de opressão entre outras, ao mesmo título que a dominação masculina ou o racismo. Para Zizek esta tese está errada. A exploração não é um tipo de opressão entre outras, mas a lógica de conjunto que subentende todas as outras. É por essa razão que o filósofo se mostra muito crítico para com o «multiculturalismo» envolvente, como testemunha o seu livro Plaidoyer en faveur de l’intolérance
S. Zizek retoma, por seu turno, o argumento marxista da «reificação», desenvolvidos nomeadamente por Lukacs no livro Histoire et conscience de classe (1923). Lukacs escreve : « […] a actividade do homem – numa economia mercantil consumada – objectiva-se em relação a ele,tornando-se numa mercadoria que está submetida à objectividade, estranha aos homens, às leis naturais, e realiza o seu movimento independentemente dos homens, qualquer que seja o bem destinado à satisfação das necessidades, convertidas em coisa mercantil». No capitalismo a actividade humana adquire o estatuto «coisa qualquer», isto é, o estatuto de uma mercadoria. O fetichismo da mercadoria contamina o conjunto das esferas de actividade e das acções humanas. Segundo S. Zizek, a consequência deste facto é liminar: « Luto, em suma, por um regresso ao primado da economia, não em detrimento das questões colocadas pelas formas pós-modernas de politização, mas precisamente a fim de criar as condições de uma mais efectiva realização das exigências feministas, ecologistas, e assim sucessivamente.»
Não se trata de minimizar a importância das lutas feministas, ecologistas ou outras. A tese da determinação «em última instância» é apresentada, por vezes, pelos seus adversários como uma maneira de inferiorizar as outras formas de luta, o que para Zizek é falso. Simplesmente, na medida em que estas formas de opressão se revestem de uma conotação capitalistas, elas não podem estar dissociadas da luta geral contra a reificação. Esta luta constitui o pano de fundo sobre o qual se desenvolvem as outras lutas, razão pela qual é necessário considerá-la como central.
Zizek desenvolve uma crítica feroz das teorias do antipoder que proliferaram nos anos 1990 e 2000. Estas teorias defendem que a tomada de poder do Estado é não somente vã, até porque o poder está disseminado no conjunto do corpo social e não concentrado num ponto, mas ainda porque esse objectivo é portador de catástrofes. Elas retoma à sua maneira a argumentação antitotalitária dos «novos filósofos» que defendem que o estalinismo, longe de ser uma degenerescência, estava já presente nas origens da revolução russa, e até mesmo na revolução francesa.
Para Zizek os teóricos do antipoder teorizam a derrota da luta social por antecipação. Eles interiorizam-na e naturalizam-na a tal ponto que se tornam incapazes de imaginar outra coisa senão «zonas de autonomia temporária» situadas nas margens do do sistema. Daí que Zizek se volte contra a crítica ao centrismo estatal, cuja raiz remonta a Foucault, apelidando-a de «nova esquerda» e convida-a a reexaminar a sua concepção descentrada de poder à luz da concepção do poder e do Estado do marxismo clássico, principalmente, a de Lenine, tanto mais que Marx é reabilitado hoje em dia, depois de ter sido denegrido duarnte os anos de 1980 e 1990.
Para Zizek é para a figura de Lenine que a esquerda radical deve agora voltar-se. Ele escreve: « O que um verdadeiro leninista e um conservador têm em comum é o facto de ambos rejeitarem a irresponsabilidade da esquerda liberal, a qual defende grandes projectos de solidariedade de solidariedde e de liberdade, mas que logo se eclipsa quando se trata de pagar todas essas coisas no momento das decisões políticas concretas, por vezes cruéis.»
E a verdade é que na revolução russa, Lenine teve a coragem de assumir a direcção efectiva do Estado, e longe de se limitar a uma celebração romântica do acontecimento-revolução de Outubro, ele procurou transpor e concretizar as suas convicções numa ordem social e política duradoura. É o que o aproxima da figura de São Paulo que procurou perseverar o acontecimento-Cristo ao longo do tempo através da fundação da Igreja. A esta transposição do acontecimento para uma ordem duradoura, Zizek designa o fenómeno com uma fórmula provocadora - «o bom terror».
Aos seus olhos, qualquer acontecimento autêntico tem algo de característico que é o seu custo.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "ajudou a mudar o equilíbrio do mundo ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas", opinou o historiador britânico Eric Hobsbawm, 94 anos. Ícone da historiografia marxista, ele se reuniu nesta quarta-feira (13) com Lula na residência do embaixador brasileiro em Londres, Roberto Jaguaribe. O convite foi feito pela equipe de Lula.
Autor do clássico "Era dos Extremos", Hobsbawm é considerado um dos maiores intelectuais vivos. Na saída da embaixada, ele deu uma rápida entrevista quando já estava sentado no banco de trás do carro, ao lado da mulher. Falando com dificuldade, o historiador teceu elogios ao governo Lula e disse que espera revê-lo mais vezes. O encontro durou cerca de uma hora e meia.
"Lula fez um trabalho maravilhoso não somente para o Brasil, mas também para a América do Sul." Em relação ao seu papel após o fim do seu mandato, Hobsbawm afirmou que, "claramente Lula está ciente de que entregou o cargo para um outro presidente e não pode parecer que está no caminho desse novo presidente".
"Acho que Lula deve se concentrar em diplomacia e em outras atividades ao redor mundo. Mas acho que ele espera retornar no futuro. Tem grandes esperanças para [tocar] projetos de desenvolvimento na África, [especialmente] entre a África e o Brasil. E certamente ele não será esquecido como presidente", disse.
Sobre o encontro, disse que foi uma "experiência maravilhosa", especialmente porque conhece Lula há bastante tempo. "Eu o conheci primeiro em 1992, muito tempo antes de ser presidente. Desde então, eu o admiro. E, quando ele virou presidente, minha admiração ficou quase ilimitada. Fiquei muito feliz em poder vê-lo de novo."
A respeito da presidente Dilma Rousseff, Hobsbawm afirmou que só a conhece pelo que lê nos jornais e pelo que lhe contam, mas ressalta a importância de o país ter a primeira mulher presidente.
"É extremamente importante que o Brasil tenha o primeiro presidente que nunca foi para a universidade e venha da classe trabalhadora e também seja seguido pela primeira presidente mulher. Essas duas coisas são boas. Acredito, pelo que ouço, que a presidente Dilma tem sido extremamente eficiente até agora, mas até o momento não tenho como dizer muito mais", falou.
"Gracias Néstor. Pusiste una Argentina de pie, sos un verdadero patriota.
Te vamos a extrañar mucho"
(um dos muitos cartazes levados por milhares de pessoas que desde ontem se aglomeram em torno da Casa Rosada, levando flores e lágrimas ao ex-presidente Kirchner).
Governo de Néstor Kirchner (2003/07) tirou a Argentina do cemitério econômico onde fora enterrada pelo neoliberalismo de Menem e De la Rúa. A exemplo dos tucanos no Brasil, Menem privatizou amplamente o patrimonio publico argentino e terceirizou a própria moeda numa dolarização desastrosa. Ao deixar a Casa Rosada, em 1999, incluía em seu passivo uma taxa de desemprego de 20%, a classe média empobrecida, dívida externa explosiva e o parque fabril esfarelado pela farsa do 'peso forte', que tornou impossível competir com as importações.
Empossado em 2003, Kirchner não hesitou: decretou a moratória da dívida externa, impondo aos credores uma renegociação com desconto de 75% -- a maior da história mundial. Vitorioso nesse braço de ferro, recompôs o poder aquisitivo da população e devolveu a auto-estima aos argentinos reduzindo a pobreza drasticamente e levando torturadores ao banco dos réus.
Hoje, a Argentina desfruta novamente de crédito internacional e a economia projeta um crescimento de 9% em 2010. Sucedido pela esposa, Cristina Kirchner, Néstor era tido como favorito para as eleições presidenciais de 2011. Sua morte deixa à viúva e valente Cristina a incontornável missão de buscar um novo mandato para impedir a volta da direita ao poder.
O conhecido linguista, filósofo e activista político norte-americano ia dar uma conferência na universidade palestiniana de Birzeit, junto a Ramala, e tentou ontem passar a fronteira da Jordânia, pela ponte Allenby, mas viu recusada a sua entrada pelas autoridades.
Depois de ter sido interrogado durante mais de três horas, e sem qualquer explicação, Noam Chomsky, que é judeu, teve o seu passaporte carimbado com a frase "entrada recusada". O site da Universidade de Birzeit divulga a notícia e está a acompanhar o caso. E até o momento as aturidades israelenses dizem ter se tratado de um mal entendido.
Pensador crítico de Israel
Noam Chomsky terá sido informado de que as razões que o impedem de entrar em Israel serão enviadas por escrito para a embaixada dos EUA.
Numa entrevista ao Canal 10 da talevisão israelita, o professor do Instituto Tecnológico de Massachussets afirmou que durante o interrogatório um oficial lhe terá dito que as suas opiniões não agradavam ao Governo de Israel. Em resposta, Noam Chomsky disse ao oficial para encontrar um Governo (de qualquer país) que gostasse dos seus pontos de vista.
Chomsky já escreveu muito sobre Israel e os palestinos, e defende que Israel e os EUA impedem a paz na região, por não aceitarem a proposta de acordo da Liga Árabe.
Recentemente, Noam Chomsky voltou a envolver-se em polémica ao escrever um ensaio em defesa da liberdade de expressão de Robert Faurisson, um escritor que nega que o Holocausto tenha existido. Fê-lo por sua crença na liberdade civil, mas, por causa disso e também por criticar Israel, tem sido acusado de apoiar o anti-semitismo, nomeadamente no livro "Partners in Hate: Noam Chomsky and the Holocaust Deniers", de Werner Cohn.
Prémio Eric Fromm 2010
Prémio Internacional Erich Fromm 2010 - distinção entregue no passado mês de Março em Stuttgart, Alemanha - pelo seu trabalho, convicções políticas e sua posição em defesa dos direitos dos pobres e oprimidos, o filósofo é conhecido pelas suas ideias de esquerda e pela postura crítica à política externa dos EUA.
Noam Chomsky assume-se como socialista libertário e simpatizante do anarquismo, tendo publicado várias análises sobre as relações de conivência entre o poder e os meios de comunicação.