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31/05/2011

A hipocrisia do discurso de Obama sobre o Oriente Médio



A profunda hipocrisia do discurso do presidente Obama sobre o Oriente Médio onde mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região.

  

O presidente Obama foi ao ar em 18/05 para falar sobre as revoltas e os conflitos que se espalham pelo Oriente Médio. A hegemonia dos Estados Unidos sobre está região estratégica e rica em petróleo tem sido o pivô da política externa de Washington por décadas. Utilizando um sistema de poder e de regimes submissos, a par de suas vastas forças militares na região, os Estados Unidos vêm sustentando uma rede de ditaduras brutais e o regime israelense por décadas.

Este sistema de controle imperial vem sendo sacudido por levantes populares que começaram na Tunísia e se espraiaram para o Egito e outros países. Sobre esta conjuntura, a administração Obama se pronunciou na sede do Departamento de Estado como parte de um esforço para reafirmar a liderança norte-americana sobre a região ora em processo de célere mudança.

Valendo-se da retórica de democracia e liberdade para mascarar a responsabilidade do imperialismo norte-americano na duradoura opressão e sofrimento por que passam os povos do Oriente Médio, o discurso do presidente Obama foi uma demonstração de inescrutável hipocrisia.

Hipocrisia: o presidente Obama disse que “o maior recurso não explorado no Oriente Médio e Norte da África é o talento de seus povos”. 

Realidade: a estratégia dos Estados Unidos é baseada no controle do mais cobiçado recurso do Oriente Médio: dois terços das reservas mundiais conhecidas de petróleo. O governo de Washington forneceu bilhões de dólares e armou as mais brutais ditaduras do Oriente Médio durante décadas, uma prática a que a administração Obama deu ampla continuidade.



O governo dos Estados Unidos jamais bloqueou ou cortou os fundos destinados à ditadura de Mubarak ainda quando o regime matou mais de 850 pacíficos manifestantes. Mais de 5 mil civis no Egito foram acusados e presos desde 25 de janeiro em julgamentos conduzidos pelos militares egípcios. Os Estados Unidos continuam a enviar maciças somas aos militares egípcios a despeito da contínua repressão contra o povo.

Hipocrisia: O presidente Obama declarou: “a política dos Estados Unidos será de promover reformas em toda a região e de apoiar as transições para a democracia”. 

Realidade: Os únicos governos do Oriente Médio que foram objeto de invasão, sanções econômicas e derrubadas pelo governo dos Estados Unidos foram aqueles que seguem políticas independentes do controle, político, militar e econômico dos Estados Unidos.

Washington jamais impôs sanções econômicas à ditadura de Mubarak e somente se manifestou publicamente contra Mubarak quando a maré da revolução tornou-se irresistível. Do mesmo modo, os Estados Unidos apoiam a brutal monarquia da Arábia Saudita.

Hipocrisia: o presidente Obama advoga para os povos do Oriente Médio os “direitos fundamentais de expressar seu pensamento e ter acesso às informações”, afirmando que, “a verdade não pode ser escondida e a legitimidade dos governos vai depender em última instância de cidadãos ativos e bem informados”.

Realidade: a administração Obama exorbitou ao punir aqueles que queriam informar o público ao jogar luz sobre as atividades do governo norte-americano. Bradley Manning permanece em prisão sob ameaça de prisão perpétua, sendo mantido em brutais condições que levaram o Relator Especial sobre Tortura das Nações Unidas a buscar investigação.

O Departamento de Justiça está trabalhando à máxima velocidade para processar Julian Assange, do Wikileaks, por abrir documentos governamentais ao público, muitos dos quais expõem o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O governo Obama leva a cabo uma grande campanha, mais agressiva do que qualquer governo anterior, a fim de processar criminalmente informantes que exponham a verdade sobre ações governamentais ilegais. 

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Os Estados Unidos se opõem ao uso da violência e da repressão contra o povo da região.” 

Realidade: Os Estados Unidos sob Obama estão envolvidos na invasão, ocupação e bombardeio ao mesmo tempo de quarto países predominantemente muçulmanos: Iraque, Afeganistão, Líbia e Paquistão. Além do mais, o chefe de Estado, isoladamente o maior violador dos direitos humanos fundamentais e perpetuador da violência na região, é George W. Bush, cuja invasão ilegal do Iraque custou a vida de mais de um milhão de pessoas. 

A invasão de 19 de março de 2003 foi uma guerra de agressão contra um país que não constituía nenhuma ameaça aos Estados Unidos ou ao povo dos Estados Unidos. A invasão e ocupação do Iraque levaram à morte de mais árabes do que os que foram mortos por todas as ditaduras da região somadas. O presidente Obama chamou Osama Bin Laden de assassino em massa.
O 11 de setembro de 2001 foi de fato um repugnante crime que tirou a vida de milhares de trabalhadores inocentes, mas medindo-se na ordem de magnitude de vítimas fatais, o crime de assassinato em massa no Iraque não tem comparação. George W. Bush não só não foi preso por assassinato em massa do povo iraquiano como é tratado com honras pela administração Obama. 

Hipocrisia: Numa tentativa de apaziguar a opinião pública árabe, o discurso do presidente Obama dá a impressão que os Estados Unidos insistem com o retorno de Israel às fronteiras anteriores a 1967. Obama afirmou “precisamente devido à nossa amizade, é importante que eu diga a verdade: o status quo é insustentável e Israel também deve agir corajosamente em direção a uma paz duradoura”.

Realidade: A guerra de Israel contra o povo palestino seria impossível sem o apoio dos Estados Unidos, que segue constante. O maior destinatário individual da ajuda externa dos Estados Unidos é o Estado de Israel, que usa os 3 bilhões de dólares de receita anualmente para manter o sítio ao povo de Gaza, continuar a ocupação ilegal da Cisjordânia e evitar o retorno das famílias de 750 mil palestinos que foram expulsos de suas casas e aldeias da Palestina histórica em 1948.

As Nações Unidas, em várias resoluções, condenaram a invasão e ocupação israelense em 1967 de Gaza, da Cisjordânia e das Colinas de Golã da Síria. Longe de impor sanções econômicas, o presidente Obama prometeu a Israel um mínimo de 30 bilhões de dólares em ajuda militar para os próximos 10 anos, funcionando, portanto, como um parceiro da ocupação.

O discurso de Obama deixou claro também que os Estados Unidos apoiariam Israel na retenção de vastas faixas da Cisjordânia. Isto é o que ele quis dizer ao se referir a “permuta de terras”. Nos próximos dias, Obama manterá encontros privados com Benjamin Netanyahu e será o orador principal da conferência do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Com certeza, irá reforçar os fortes vínculos militares com Israel e a ajuda financeira.

Hipocrisia: o presidente Obama declarou: “Nós apoiamos um conjunto de direitos universais. Esses direitos incluem liberdade de expressão; liberdade de reuniões pacíficas; liberdade de religião; igualdade entre homem e mulher sob o império da lei e liberdade para escolher seus próprios líderes – onde quer que você viva em Bagdá ou Damasco, Sanaa ou Teerã ... Continuaremos a insistir que esses direitos universais se apliquem tanto às mulheres quanto aos homens.” 

Realidade: Enquanto o governo dos Estados Unidos, junto com a Inglaterra e a França, os antigos colonizadores do Oriente Médio e da África, bombardeavam a Líbia com mísseis e bombas de última geração em nome da “proteção aos civis” e da “promoção da democracia”, o governo Obama apresentava a mais morna crítica à monarquia do Bahrein quando esta e a monarquia saudita matavam e prendiam manifestantes pacíficos no Bahrein.
Nenhuma sanção foi imposta ao Bahrein ou Arábia Saudita. A monarquia saudita é a suprema negação de democracia, privando as mulheres de todos os direitos, privando os trabalhadores de formar sindicatos e privando todos os setores da população de qualquer direito de livre manifestação, reunião ou imprensa. Nunca houve eleição na Arábia Saudita.

Porém as funções da monarquia saudita como cliente e submissa dos Estados Unidos não fazem dela objeto de sanções econômicas ou “mudança de regime” como o são os governos da Síria e da Líbia. A monarquia do Bahrein igualmente funciona como cliente dos Estados Unidos e permite que a 5ª Frota utilize o Bahrein como base naval. Eis o motivo porque Washington refere-se à monarquia como “um parceiro de longa data”.

Hipocrisia: O presidente Obama denunciou o governo do Irã, afirmando que “iremos continuar a insistir que o povo iraniano merece ter direitos universais” e condenou o que ele chamou de “programa nuclear ilícito” do Irã.

Realidade: Ele deixou de mencionar que foi a CIA junto com o serviço secreto britânico, que orquestrou a derrubada do governo democrático do Irã em 1953 e reinstalou a monarquia do xá. Eles derrocaram a democracia iraniana quando o Irã nacionalizou seu petróleo da AIOC/British Petroleum. Os Estados Unidos só romperam relações com o governo iraniano quando a ditadura do xá foi derrocada por uma revolução nacional popular.

Com relação às armas nucleares, o governo de Israel recusou-se a assinar o tratado de não-proliferação nuclear e acumulou 200 “ilícitas” armas nucleares. É claro, os Estados Unidos têm milhares de armas nucleares e permanece sendo o único país a ter usado armas nucleares, destruindo Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Hipocrisia: o presidente Obama diz ao mundo que os Estados Unidos partilham dos objetivos da revolução árabe, que “a repressão irá fracassar, que as tiranias irão cair, e que todo homem e mulher são dotados de certos direitos inalienáveis.”

Realidade: O governo dos Estados Unidos, seja ele comandado pelos republicanos ou democratas, vê o Oriente Médio, rico em petróleo, pelas lentes do império. Operando por meio de uma rede de regimes amigos que inclui Israel, Arábia Saudita, Jordânia, a ditadura de Mubarak no Egito, o xá do Irã até sua deposição em 1979 e outros regimes da região, suplementado por dezenas de milhares de tropas norte-americanas posicionadas em bases de toda a região, e por porta-aviões, os Estados Unidos almejam dominar e controlar a região responsável por dois terços das reservas mundiais de petróleo conhecidas.

Mantém e continua a financiar uma rede de ditaduras submissas brutais, financia a máquina de guerra israelense e leva a efeito repetidas invasões, bombardeios e ocupações contra os povos da região. 



22/05/2011  Brian Becker e Mara Verheyden-Hilliard* | Washington
 
* Brian Becker é co-diretor do International Action Center. Mara Verheyden-Hilliard é ativista, promotora e co-fundadora da Partnership for Civil Justice. Ambos co-escreveram esse artigo para a organização ANSWER (Act Now to Stop War and End Racism). Traduzido por Max Altman. 

09/02/2011

Vencedores e Perdedores

Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

Por Immanuel Wallerstein
[08 de fevereiro de 2011 - 11h56]
 
 
A revolta árabe de 1916 foi liderada por Sharif Hussein Bin Ali em direção à independência árabe do império otomano. Os otomanos foram expulsos. No entanto, a grande revolta foi cooptada pelos britânicos e franceses. Depois de 1945, gradualmente, os vários Estados árabes se fizeram membros independentes da ONU. Mas, na maioria dos casos, sua independência foi cooptada pelos Estados Unidos, sucessor da Grã-Bretanha como controlador externo, tendo a França mantido um papel menor no Magrebe e no Líbano.

E a segunda revolta árabe já está cozinhando há alguns anos. No mês passado ela obteve uma injeção substancial com os bem-sucedidos levantes da juventude tunisiana. Quando existem jovens corajosos que arriscam sua vida para se levantar contra um regime autoritário e super-corrupto e são bem sucedidos, de fato, em derrubar o presidente, temos que aplaudir. Independentemente do que venha depois, foi um bom momento para a humanidade. A questão é sempre, o quê vem depois?

Na realidade são duas perguntas. Como foi que este levante triunfou, quando muitas outras tentativas em muitos outros países falharam? E, logo, quem serão os vencedores e os perdedores na Tunísia, em outras partes do mundo árabe, e no sistema-mundo completo?

Não é fácil rebelar-se contra um regime autoritário. O regime tem armamento e dinheiro a sua disposição, e normalmente pode suprimir com facilidade as tentativas de desafiá-lo que ocorrem nas ruas. Atos simbólicos, como a auto-imolação do vendedor ambulante em um povoado tunisiano remoto, Mohamed Bouazizi, em protesto contra os extravagantes atos dos agentes do regime, podem incentivar outros a protestarem, como ocorreu na Tunísia. Mas para que o dito ato conduza à derrocada do regime, este deve ter fissuras.

Neste caso, é claro que existiam tais fissuras. Nem o exército nem a polícia estavam preparados para disparar contra os manifestantes, e deixaram esta tarefa para a guarda presidencial de elite. Não foi suficiente, e o presidente Zine el-Abidine Ben Ali e sua família tiveram que fugir, e só encontraram refugio na Arábia Saudita. Que havia fissuras no regime, isto fica claro pelo feito de que ao tentar sobreviver à tormenta, as principais figuras do partido de Ben Ali se certificaram de prender a figura chave da maquinaria repressiva, Abdelwahab Abdallah, garantindo que ele não os prendesse. Lembremos como foi que, depois da morte de Stalin, seus sucessores prenderam Lavrenti Beria de imediato, pela mesma razão.

Obviamente, depois que Ben Ali fugiu, o mundo inteiro aplaudiu, com a exceção de Kaddafi na Líbia e Berlusconi na Itália, que continuaram defendendo as virtudes do ditador. O lugar de onde vinha o principal respaldo exterior de Ben Ali, a França, se envergonhou o suficiente a ponto de confessar seus erros de juízo. Os Estados Unidos, tendo deixado a Tunísia nas supostamente seguras mãos dos franceses, não sentiram a necessidade de oferecer desculpas semelhantes.

Como todo o mundo observa, o exemplo da Tunísia deu um impulso para que em outras ruas árabes de outras partes fosse trilhado um caminho semelhante; os exemplos mais notáveis no momento estão no Egito, Iêmen e Jordânia. Enquanto escrevo, é pouco certo que o presidente do Egito, Hosni Mubarak, seja capaz de sobreviver.

Quem são os vencedores e os perdedores? Não saberemos pelo menos nos próximos seis meses, talvez mais, quem chegou, de fato, ao poder na Tunísia, no Egito, na verdade em todo o mundo árabe. Os levantes espontâneos criam uma situação como a da Rússia de 1917 quando, segundo a famosa frase de Lênin, o poder está nas ruas, e portanto uma força decidida e organizada pode tomá-lo, que foi o que fizeram os bolcheviques.

A real situação política em cada um dos Estados árabes é diferente. Não há Estado árabe na atualidade que tenha um partido radical, laico, organizado, como os bolcheviques, que esteja pronto para tentar tomar o poder. Há vários movimentos liberais burgueses que gostariam de ter um papel maior, mas poucos parecem ter uma base importante. Os movimentos mais organizados são os islamitas. Mas, estes movimentos não têm uma só cor. Suas versões de um Estado islâmico vão dos relativamente tolerantes com outros grupos, como o que existe agora na Turquia, à severa versão da sharia (como os talibãs executam no Afeganistão), com variedades intermediárias como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Mas o que acontece com os poderes externos, que estão profundamente envolvidos em tentar controlar a situação? O principal ator externo é os Estados Unidos. Um segundo ator é o Irã. Todos os outros – Turquia, França, Grã-Bretanha, Rússia e China – são menos importantes sem deixarem de ser relevantes.

O grande perdedor da segunda revolta árabe é claramente os Estados Unidos. Constata-se isso com a incrível hesitação do governo estadunidense neste momento. Os EUA (como qualquer outra das potências importantes do mundo) colocam um critério acima de todos os demais: os regimes que são amigáveis. Washington quer estar do lado dos vencedores, sempre e quando o vencedor não seja hostil. Que fazer então numa situação como a do Egito, que hoje é virtualmente um Estado patrocinado pelos Estados Unidos? Washington se encontra reduzido a fazer chamados públicos em nome de mais democracia, de que não haja violência, e de negociações. Depois de grandes encenações, parecem ter dito ao exército egípcio para que não envergonhe os Estados Unidos, disparando contra pessoas demais. Porém, poderá Mubarak sobreviver sem disparar contra muita gente?

A segunda revolta árabe ocorre em meio a uma caótica situação mundial na qual imperam três características: uma queda dos padrões de vida de dois terços da população mundial, aumentos escandalosos nos salários atuais de uma camada elevada relativamente pequena e uma séria decadência do poder efetivo da assim chamada superpotência, Estados Unidos. A segunda revolta árabe, não importa como resulte, irá corroer ainda mais o poderio estadunidense, especialmente no mundo árabe, precisamente porque a única base segura de popularidade políticas nestes países, hoje, é a oposição a que Washington interfira em seus assuntos. Mesmo para aqueles que normalmente querem o envolvimento dos Estados Unidos, e dependem deste, torna-se perigoso continuar com esta postura.

O maior vencedor é o Irã. Sem dúvida o regime iraniano é visto com considerável suspeita, em parte porque não é árabe e em parte porque é xiita. No entanto, foi a política estadunidense que deu ao Irã seu presente maior, a derrocada de Saddam Hussein. Saddam era o mais feroz e eficaz inimigo do Irã. Os líderes iranianos provavelmente proferem alguma bênção diária para George W. Bush por seu maravilhoso presente. Construíram sobre este golpe de sorte uma inteligente política com a qual demonstraram estar prontos para dar respaldo a movimentos não xiitas tais como Hamas, sempre que confrontarem fortemente Israel e a intromissão estadunidense na região.

Um vencedor menor é a Turquia, que foi uma maldição para as forças populares no mundo árabe pela dupla razão de que é herdeira do império otomano e uma aliada próxima dos Estados Unidos. O atual regime eleito popularmente, um movimento islamita que não busca impor a lei da sharia sobre toda a população, mas sim, unicamente, o droit de cité para a conformidade islâmica, moveu-se em direção a apoiar a segunda revolta árabe, ainda com um risco de comprometer suas anteriores boas relações com Israel e Estados Unidos.
E, é claro, os maiores vencedores desta segunda revolta árabe serão, com o tempo, os povos árabes.

Publicado por Rebelión. Foto por Epa/Lucas Dolega.

Samir Amin e a "revolução" no Egito

Reproduzo artigo do intelectual egípcio Samir Amin, publicado originalmente no blog de Atilio Boron:

O Egito é a pedra angular do plano norte-americano para controlar o planeta. Washington não vai tolerar nenhuma tentativa do Egito de acabar com a sua total submissão aos interesses imperiais, coisa que Israel também necessita para prosseguir colonizando o que resta da Palestina.

Este é o objetivo excludente de Washington em seu “envolvimento” para impulsionar uma “transição suave” no Egito. Tendo em vista esta situação, os EUA poderiam considerar que Mubarak poderia renunciar e o recém designado vice-presidente, Omar Solaimám, chefe da Inteligência militar, ficaria em seu lugar. Mas o exército foi muito cuidadoso em não ficar preso à repressão, preservando a sua imagem.

Então, aparece Baradei. Ele, porém, é mais conhecido fora do que dentro do Egito, mas este defeito poderia ser corrigido rapidamente. Baradei é um “liberal”, sem idéias de como conduzir a economia e, por isto mesmo, não pode compreender que é precisamente por causa dela que ocorreu a atual devastação social. É um democrata, no sentido de querer “eleições genuínas” e em respeitar a lei (por exemplo: parar as prisões e as torturas), nada mais.

Não é impossível que Baradei possa ser um aliado na transição. Mas nem o exército, nem as agências de inteligência estão dispostos a abandonar a sua posição dominante que desfrutam perante a sociedade. Baradei aceitaria isto?

No caso de “êxito” e “eleições”, a Irmandade Muçulmana será a principal força parlamentar. Aparentemente, os EUA veriam com satisfação este resultado porque caracterizaram a IM como “moderada”, dócil, disposta a aceitar a submissão do país à estratégia norte-americana, deixando que Israel continue a ocupar a Palestina.

A IM também é a favor da economia de mercado, que torna o Egito um país totalmente dependente do exterior. Ela é, de fato, a principal sócia e aliada da burguesia “compradora”, considerada um feudo para o imperialismo. A IM foi contra as greves dos trabalhadores e contra as lutas dos camponeses pela propriedade da terra.

O Plano dos EUA para o Egito é semelhante ao modelo paquistanês: uma combinação de “Islã político” com a Inteligência militar. A IM poderia compensar seu apoio a estas políticas sendo, precisamente, “não-moderada” em sua conduta diante de outras religiões. Poderia um sistema desse tipo merecer um certificado de “democracia”?

O movimento atual tem como seus componentes fundamentais a juventude urbana, com estudos e diplomas, mas sem trabalho, apoiada por segmentos das classes médias educadas e democratas. O novo regime poderia, talvez, fazer algumas concessões. Por exemplo: garantir o recrutamento para servir em aparatos estatais, mas dificilmente mais do que isso.

Claro que as coisas poderiam mudar se a classe trabalhadora e os movimentos campesinos entrassem em cena. Mas tal coisa não parece estar na agenda. Na medida em que o sistema econômico for manejado de acordo com as regras da “globalização neoliberal”, nenhum dos problemas que deram origem ao atual movimento de protesto poderá ser realmente solucionado.

* Tradução de Sandra Luiz Alves


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03/02/2009

A Revolução Islâmica




Há exatos 30 anos o Irã
realizava a sua ruptura
com o Ocidente,
sacudindo o Tabuleiro Mundial.



A partir de então, passaram a se configurar como a grande
pedra no sapato dos estadunidenses.

Hoje, o Irã tem uma representatividade
e influência muito grandes no mundo árabe,
e para o ocidente são,
não só uma ameaça geopolítica,
mas nuclear e terrorista.





Do ponto de vista geopolítico, estão localizados no epicentro dos maiores conflitos da contemporaniedade, fazem fronteira com o Iraque, com o Afeganistão, com o Paquistão e muito próximos dos territórios palestinos ocupados por Israel - seu principal inimigo ao lado dos EUA.


A Revolução Islâmica proclamada em 1979 com o retorno do aiatolá Khomeini do exílio de 15 anos, decretou o fim do regime monárquico marcado pela corrupção e nepotismo, liderado pelo último Xá da Pérsia, Reza Pahlevi - monarca pró-ocidente, que estava abrindo a sociedade iraniana aos valores ocidentais, na mesma proporção em que aumentava a opressão do regime político. Manisfestações populares e crise econômica ligadas aos altos e baixos do preço do petróleo no mercado mundial, ajudaram a enfraquecer o regime dos Xás.

O crescimento da rivalidade islâmica que se opôs a ocidentalização do Irã, via em Khomeini, clérigo xiita, o promotor da Revolução e sobre os gritos de "somos todos seus soldados" milhares de militantes islâmicos partidários ao regime dos aiatolás o saudaram no aeroporto internacional de Teerã, quando do seu regresso em fevereiro de 1979. Desde então, todos os anos, escolas, meios de transporte e repartições públicas tocam seus sinos e buzinas às 09h33 locais, horário em que pousou o avião da Airfrance no qual ele retornava há 30 anos.

Tinha início a Revolução Islâmica com o objetivo maior de resgate as tradições religiosas muçulmanas que estavam sendo corrompidas pelos costumes ocidentais, sendo banidos do país vestimentas como a mini-saia, maquiagens, música, jogos, cinema, reintroduzidos os castigos corporais para quem violasse os preceitos da sharia (adultério, consumo de álcool...), perseguição e assassinatos dos opositores do novo regime - fossem eles religiosos (judeus por exemplo), políticos (marxistas), prostitutas, homossexuais... Em suma, perseguição política, uma maior opressão as mulheres e o corte de relações com EUA.


A Revolução Islâmica do Irã começou como um movimento
popular pela democratização e terminou
com a criação do primeiro Estado islâmico.
O episódio transformou completamente a estrutura social do país
e foi um dos momentos que marcaram o século 20.


Khomeini foi escolhido como perpétuo líder supremo político e religioso do Irã, é reverenciado em todo o país e em grande parte do mundo muçulmano ainda hoje.

Três décadas após, o Irã tem um presidente laico e ultra-conservador, Mahmoud Ahmadinejad, personalidade marcante que defende um projeto nuclear audacioso, mantém um exército bem estruturado e propaga discursos nacionalistas e radicais, ao mesmo tempo em que estreita as relações diplomáticas de seu país com os principais países definidos como "eixo do mal" pelo governo do ex-presidente norte-americano George W. Bush, como Coreia do Norte, Cuba e Líbia por exemplo, sem falar na Venezuela, o atual calcanhar de aquiles na América Latina.


Podemos dizer que mais do que nunca, a Revolução Islâmica atravessa um momento histórico crucial, didivida entre os apoiadores e os que contestam o regime, defendendo que hoje as reinvindicações são diferentes das dos anos idos, querendo olhar para o futuro de forma mais livre, o que não deixa de ter relação com o Ocidente.

O presidente Barack Obama já declarou sua intenção em rever as relações com o Irã, as quais foram desfeitas em 1980 quando mais de 50 americanos, funcionários da embaixada do país em Teerã foram sequestrados e mantidos em cárcere por quase 500 dias.

O futuro dos iranianos é uma incógnita, o referido diálogo EUA - IRÃ é possível de acontecer nos próximos meses, mas não podemos esperar que deste, venhamos a ter de pronto, um novo posicionamento político na região, assim como no grande tabuleiro das relações internacionais, dado o imenso oceano que separam estes dois mundos, diferentes até no calendário - uma vez que nós ocidentais utilizamos o solar e os persas, de acordo com seu almanaque, o lunar.

Graziele Saraiva

13/01/2009

GAZA III: Pelo fim do massacre


Assine a petição abaixo pedindo uma forte ação internacional que possibilite um cessar-fogo imediato em Gaza e que passos sérios sejam tomados para garantir um paz justa e duradoura na região.
Nossa mensagem já está chamando a atenção e agora a petição será publicada no jornal The Washington Post e entregue para representantes do Conselho de Segurança da ONU esta semana.

Para assinar, acesse:
http://www.avaaz.org/es/gaza_time_for_peace/

GAZA II

ISOLAMENTO

Israel alegou autodefesa para atacar a densa faixa de Gaza, foi apoiado pelos EUA e condenado mundo afora pela "reação desproporcional". Com a morte de líderes do Hamas e de mais de 800 palestinos (mais de duas centenas de crianças), é hora de recuar.

Em guerras, perdem-se vidas, armamentos, infraestrutura, bilhões de dólares e, muitas vezes, amor-próprio. Mas Israel está jogando fora algo mais: a sua imagem.

Ao explodir uma escola da ONU, um caminhão de suprimentos da organização e provavelmente um abrigo para onde atraía cem civis, Israel permite a suspeita de que não apenas combate um inimigo, mas perdeu o controle do próprio ódio. E mais: ao confrontar a ONU, confronta o mundo. Isola-se.

Em entrevista ao "Guardian", jornal inglês, a alta-comissária de direitos humanos da ONU, Navi Pillay, defendeu que o Exército de Israel seja julgado por "crimes de guerra". A guerra acaba, mais cedo ou mais tarde, mas o julgamento, sobretudo moral, continua.

É importante defender o direito de existir do Estado de Israel e não cabe a comparação ofensiva entre as ações israelenses de hoje e os massacres nazistas de ontem contra os judeus. Mas o fato é que o ódio de Israel faz nascer, ou crescer, em diferentes regiões, o ódio a Israel.

São vários erros de cálculo doa tual governo israelense: sair militarmente vitorioso, mas derrotado politicamente; fortalecido internamento para a eleição de fevereiro, mas enfraquecido internacionalmente. E a cúpula do radical e inconsequente Hamas sair aos fragalhos, mas aguando a semente de ódio das novas gerações e secando o poder moral e político da Autoridade Nacional Palestina.

Toda guerra produz vítimas, mas esta deixa para história montanhas de corpos infantis, de um lado, e exércitos infantis prontos a tudo do outro.
Todos perdem, ninguém ganha.
E o grande vitorioso pode ser o principal derrotado.


Por Eliane Cantanhêde para a Folha de São Paulo.

08/01/2009

GAZA



Limpeza Étnica?!!!!!


Muitas são as evidências que nos levam a crer que Israel esta praticando uma espécie de "Limpeza Étnica" na Faixa de Gaza, abaixo alguns exemplos pertinentes a esta alegação:





Ataques iniciam entre festividades de final de ano!
Querendo ou não, grande parte da população mundial manteve-se alheia ao início dos conflitos por estarem entre festas de natal e ano novo, logo, a opinião pública não teve grandes mobilizações até término das mesmas. Nesta primeira semana sim, tiveram vultosas manifestações públicas, principalmente na Europa Ocidental e em países do Oriente Médio.

A superioridade bélica do Estado de Israel delineia a desigualdade do conflito!
O exército israelense explicitamente financiado pelas forças armadas estadunidenses, possuem armamentos de primeira linha, tecnologicamente muito mais avançados dos que os mísseis, grande parte de fabricação caseira, usados pelos militantes do Hamas.
Esta desproporcionalidade de combate aliada às práticas violentas , irracionais e , acima de tudo, desiguais de seu exército, caracterizam Terrorismo de Estado.

Baixas incomparáveis, 13 x 800!
Em pouco mais de 15 dias de início do conflito, o número de baixas para os dois lados reflete a diferença de parâmetros. Até ontem, apenas 13 mortos do lado israelense, sendo apenas 5 civis, e do lado palestino, mais de 800, sendo a maioria civis e mais de 257 crianças. Inclusive, numa manifestação estúpida de estratégia militar, bombardearam no ultimo dia 6/01 uma escola gerida pela ONU.

Israel dificulta e impede entrada de Ajuda Humanitária!
De tão absurda a notícia, fica difícil de crer numa solução a curto prazo, nem a médio e que não morram as esperanças, de que ocorra em um longo.
No início da semana foi negociado uma trégua diária de 3 horas! Dia 08/01 por exemplo, o cessar-fogo durou pouco mais de 15 minutos, e um caminhão da ONU que transportava ajuda humanitária foi atacado por soldados israelenses, o motorista morreu.
Nestas três horas a população palestina residente na faixa de Gaza tem de se deslocar, alguns, por vários km para ter acesso a alimentos, água, medicamentos e socorro médico. Fala-se na criação de um corredor humanitário. 75% da região esta sem energia elétrica e os hospitais não tem condições de atender a quantidade de feridos, configurando uma situação de clara crise humanitária.

Vazio de Poder!
Todos sabemos da ineficiência de George W. Bush frente aos conflitos internacionais, ainda mais quando relacionados ao seu principal aliado no Oriente Médio, Israel. Dificilmente se manifestam com relação aos conflitos sempre existentes na região, ao não ser quando envolvem, reservas petrolíferas, como temos assistido nos últimos anos. Não seria agora, em seu momento de retirada, que iria se envolver neste enorme abacaxi!
Obama, por sua vez, diz que somente se manifestará oficialmente após sua posse, no próximo dia 20/01, mas e até lá?
Por mais que a União Européia, liderada pelo presidente francês Sarcozy, tente mediar o conflito, parecem não ter forças diplomáticas suficientes para conseguir qualquer acordo.
Ou seja, quase nada acontece.... caracterizando um vazio de poder.

Infelizmente, o desenrolar dos acontecimentos nos afasta de um fim próximo.


PS: Hugo Chavez expulsou esta semana o Embaixador Israelense da Venezuela, alegando que seu país não servirá de base a representantes de Estados Genocídas, afirmando estar "ao lado da vida, do respeito à soberania dos povos e da justiça."
Dá-le!!!

Graziele Saraiva

Segue texto publicado pela Cruz Vermelha:
Gaza: acesso aos feridos continua sendo prioridade

Depois de quase duas semanas de combates ininterruptos, continua difícil obter acesso aos feridos e esta a prioridade na Faixa de Gaza. As organizações humanitárias devem poder realizar suas atividades com segurança.

Ontem, 6 de janeiro, o CICV teve de abandonar várias tentativas de transportar gêneros médicos aos hospitais devido ao combate, ainda assim o CICV tentou conseguir realizar passagens seguras. O CICV também tentou escoltar cinco ambulâncias da Sociedade Crescente Vermelho da Palestina, que recolheriam pessoas seriamente feridas, ao sul da Faixa de Gaza, mas não foi possível fazê-lo por conta do constante combate.

As autoridades israelenses anunciaram que um corredor humanitário será aberto e eles pararão os ataques por três horas por dia para ajudar as organizações humanitárias a realizarem seus trabalhos. "É um passo importante", disse Pierre Wettach, chefe da delegação em Israel e Territórios Palestinos Ocupados. "Agora temos que ver se isso de fato funciona – e para que isso aconteça, é preciso que ambas as partes envolvidas neste conflito respeitem. No entanto, o que precisamos agora é de um acordo de segurança permanente que permita que as ambulâncias recolham os feridos em toda a Faixa de Gaza. Além disso, os caminhões com gêneros humanitários de necessidade urgente precisam chegar a hospitais, abrigos e outras instalações".

A criação de corredores humanitários não modificará em nada o fato de que os civis que vivem afastados deles também precisam ter acesso a assistência humanitária e cuidados médicos sempre. Além disso, as ambulâncias, os técnicos de manutenção dos serviços básicos, como eletricidade e redes de água, e trabalhadores humanitários devem ter permissão para realizar seus trabalhos de salvamento por toda a Faixa de Gaza.

O CICV continuará a pressionar por uma coordenação eficiente que permita rapidez, passagens seguras para as ambulâncias para o recolhimento de feridos, entrega de gêneros médicos e também para conseguir passagens seguras para os técnicos que tentam consertar com urgência as linhas de energia ou sistemas de fornecimento de água que foram danificados pelos bombardeios.

O CICV se chocou ao saber do ataque israelense ao um abrigo para deslocados da AATNU em Jabaliya na terça-feira, causando um grande número de mortos e feridos. "Também havíamos direcionado famílias que buscavam segurança para esse abrigo", disse Pierre Wettach. "Esse é um incidente muito grave que mostra que as pessoas não podem ter certeza de encontrar segurança em nenhum lugar nesse momento. A AATNU pediu uma investigação internacional independente desse incidente e reiteramos que as partes envolvidas devem fazer o possível para poupar as vidas dos civis".

http://www.icrc.org/web/por/sitepor0.nsf/html/palestine-update-060109



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