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21/02/2012

Quem imaginaria 2011?

Sete teses sobre as ocupações de 2011

 Os movimentos surgidos em todo o planeta no último ano trazem reflexões e derrubam mitos nos quais boa parte do pensamento político se apoiou recentemente



*Por Idelber Avelar
Um ano atrás, quem imaginaria que uma multidão insistente e pacífica, sem quaisquer laços com a Irmandade Muçulmana, retornaria à Praça Tahrir uma e outra vez, durante semanas, até derrubar o ditador egípcio Hosni Mubarak? Quem teria previsto que um movimento de ocupação popular, de contornos antineoliberais e, em alguns momentos, anticapitalistas, varreria os EUA de leste a oeste, deixando estupefatos e sem reação tanto os dois partidos políticos como os comentaristas da mídia corporativa? Quem suporia que a profundidade da crise e a mobilização popular derrubariam primeiros-ministros europeus, como na Grécia e na Itália? Quem imaginaria 2011? 
 
1. As ocupações de 2011 enterram mais uma vez as teleologias da História. A última vez que ouvimos falar que a História havia chegado a seu ponto final foi nos anos 1990. Francis Fukuyama tomou a queda do muro de Berlim como comprovação de que a teleologia da História — ou seja, a concepção que a entende como dirigindo-se a um fim preestabelecido — havia se realizado, com a vitória definitiva do capitalismo liberal, que então só necessitaria ajustes em seu interior, sem qualquer outra ameaça externa. Não foi uma revolução socialista, mas um atentado terrorista em Nova Iorque que se encarregou de pôr a pá de cal nessa celebração otimista. A década que se seguiu ao atentado foi marcada pelo conceito de guerra sem fim: os EUA tentaram rearticular sua hegemonia em declínio por meio da construção de um inimigo onipresente, virtual e despersonalizado, e nessa toada viveu-se a década 2001-2011. Quando mais parecia que o binômio “imperialismo dos EUA x fundamentalismo islamista” se manteria como a polarização definidora da política mundial, emergem em todo o mundo árabe ocupações populares sem relação com o islamismo e, no Ocidente, sem qualquer relação com o morno antagonismo que opõe liberais ou social-democratas aos conservadores da direita. As ocupações de 2011 reafirmam a condição inacabada da História, sua natureza radicalmente pendente, seu caráter de puro devir.
 
2. As ocupações de 2011 apontam sinais de falência generalizada dos partidos políticos. Talvez não haja fio unificador mais visível em todas as revoltas (Tunísia, Egito, EUA, Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra, Bahrein, Iêmen, Síria, Argélia etc.) que seu caráter autônomo em relação às coletividades políticas já sancionadas, nos casos europeu e estadunidense, pelas democracias representativas ou, no caso do mundo árabe, pelas autocracias militares ou monárquicas. Aqui, a Espanha é emblemática: sob um governo social-democrata, liderado por José Luis Zapatero, um primeiro-ministro de considerável prestígio no exterior, uma multidão de indignados fez ouvir em claro e bom som a mensagem de que nem PP, o Partido Popular, de direita e franquista, nem o PSOE, o Partido Socialista Operário Espanhol, de Zapatero, os representavam. Não se trata só de que estes movimentos são independentes dos partidos. Trata-se de uma ruptura muito mais profunda, através da qual as multidões (des)organizadas denunciam a perda da capacidade destes partidos de representarem os desejos políticos reais que se articulam na pólis. As ocupações não se levantam apenas contra as ditaduras e o autoritarismo, no mundo árabe, e o arrocho salarial e a financeirização da vida, no Ocidente, mas também, em ambos os espaços, contra as estruturas supostamente representativas da política. Neste contexto, não faz sentido responsabilizar os indignados da Espanha pela vitória do PP nas últimas eleições, posto que seria bastante difícil encontrar grande diferença entre a política econômica aplicada por Zapatero e aquela imposta anteriormente por Aznar. 
 
3. As ocupações de 2011 são uma crítica da representação e resgatam uma memória dos oprimidos: a democracia direta. A autonomia popular reunida na Plaza del Sol, em Liberty Plaza e em dezenas de outras praças públicas ao redor do Ocidente denuncia o caráter não-democrático da democracia liberal. A financeirização do mundo também molda os partidos políticos, e nenhum exemplo é mais eloquente que os EUA: 80% dos cidadãos estadunidenses desaprovam o Congresso de seu país, mas não podem renová-lo, porque a legislação eleitoral é construída de tal forma que só os Partidos Democrata e Republicano sobrevivem — ambos, o segundo um pouco mais, cativos dos interesses do grande capital e, muito especialmente, do capital financeiro. As ocupações de 2011 mostram que a falência da democracia representativa é filha da financeirização do mundo. A disseminada desilusão com a administração Obama, por exemplo, não deu lugar a um crescimento do Partido Republicano nem à formação de um terceiro partido (há dezenas de “terceiros partidos” nos EUA, sem possibilidade de participação no processo político real). Essa desilusão deu lugar ao “Ocupar Wall Street”. A resistência do movimento às regras estabelecidas no jogo eleitoral e a preferência pela construção da democracia direta lembra muito mais a Comuna de Paris ou Maio de 1968 que qualquer outro movimento acoplado à maquinaria de representação política da democracia institucional. Em assembleias, passeatas, nos comoventes microfones humanos do Ocupar Wall Street (saída encontrada para contornar a proibição de microfones nas praças), nas oficinas solidárias oferecidas pelos ocupantes, encontra-se em gestação outro conceito de democracia, cujo atributo principal, sem dúvida, é este: ele se reinventa permanentemente. Ninguém sabe no que vai dar. 
 
4. As ocupações de 2011 demonstram que nenhuma luta popular genuína pode se limitar hoje a fronteiras nacionais. A quebra do capitalismo europeu transforma o aparato eleitoral de suas nações em pouco mais que uma escolha do comissário que irá obedecer às ordens do capital financeiro. Num contexto de integração monetária continental e integração comercial global, em que a manipulação de títulos de dívida e o fluxo de capitais são capazes de derrubar uma economia europeia em questão de dias, desapareceu a diferença entre governos conservadores e social-democratas, pois praticamente desapareceu a margem de manobra destes últimos. Os social-democratas e os socialistas podem ainda manter uma retórica mais progressista, alguma memória de sua época de representantes da classe trabalhadora e a disposição a um “diálogo” (sempre infrutífero) não vistas na direita, mas o resultado final, especialmente na política econômica, é o mesmo. Nas ocupações de 2011, por boas razões, têm sido minoritárias as vozes que acreditam numa rearticulação da potência autônoma da multidão com o aparato político nacional. Talvez desde a I Internacional Comunista ou, no máximo, a onda de revoluções abortadas na Europa durante o período da III Internacional, não se sentia tão nitidamente a necessidade de um processo revolucionário global, que escape do dilema entre ceder às limitações impostas pelo capital ao Estado-Nação e abdicar de tomar o poder para permanecer na pura negação. A saída para esse dilema, como todas as outras questões estratégicas que acossam as ocupações, continua pendente, com resolução não vislumbrada. Mas é nítida a consciência de que qualquer adequação aos limites do Estado-Nação não satisfará a energia transformadora já desatada. 
 
5. As ocupações de 2011 enterram de vez o mito da democracia liberal tolerante com o dissenso. O exemplo definitivo aqui são os EUA, justamente porque o “Ocupar Wall Street”, ao contrário, por exemplo, da revolta de excluídos na Inglaterra, tem sido um movimento pacífico. Mesmo assim, a repressão policial tem se manifestado de forma assombrosa. Em meados de novembro, correu o mundo a imagem de um policial de Davis, na Califórnia, lançando spray de pimenta sobre um grupo de estudantes sentados de braços dados na área central do campus. O policial tinha o semblante de quem dedetiza uma nuvem de insetos. Em Seattle, a jovem Jennifer Fox foi espancada por policiais até sofrer um aborto. Ainda em Seattle, uma senhora de 84 anos, Dorli Rainey, recebeu jatos de spray de pimenta na cara até não conseguir se mover sem ajuda de companheiros de ocupação. Em Nova Iorque, a polícia deliberadamente orientou os manifestantes a se dirigirem à Ponte do Brooklyn para ali prendê-los. O acampamento da Liberty Plaza foi acossado por faróis da polícia durante semanas, piscando ao longo da noite para impedi-los de dormir. Veteranos de guerra foram espancados pela polícia de Boston ao se interporem entre ela e os manifestantes, tentando defendê-los de uma desocupação que violava grosseiramente a Primeira Emenda da Constituição. São centenas de presos em todo o país, todos eles cidadãos pacíficos que exerciam um direito previsto em lei. Só com grande ingenuidade ou má-fé seria possível defender hoje a ideia de que a Primeira Emenda significa algo quando se trata de mobilização popular anticapitalista nos EUA. 
 
6. As ocupações de 2011 realçam o papel das novas tecnologias e o caráter insubstituível da rebelião presencial. Já se transformou em senso comum a ideia de que as novas tecnologias digitais e redes como o Facebook e o Twitter cumprem papel central nas novas revoltas. Isso é correto, evidentemente. Na rebelião de consumidores excluídos na Inglaterra, todo o agendamento de levantes se deu pelo comunicador do Blackberry (BBM), enquanto que, nos EUA e no Egito, o Twitter e o Facebook multiplicavam os canais de circulação do protesto. Não se trata simplesmente de que novas tecnologias se transformam em veículos de comunicação comparáveis ao telefone ou ao telégrafo, privilegiados em outras eras. Os novos trabalhadores são, eles mesmos, peças de um capitalismo cognitivo, no qual a produção de lucro passa pelo valor imaterial da mercadoria produzida: patentes, propriedade intelectual, dívida sem materialidade sob a forma de puros títulos, teologia do copyright. Eis aí os termos decisivos através dos quais se articula a dominação capitalista hoje. Ou seja, o próprio capitalismo financeiro contra o qual se rebelam as multidões de 2011 tem como atributo a imaterialidade reproduzível das formas de comunicação usadas pelos manifestantes. É exatamente por isso que nada é mais ingênuo que celebrar as novas tecnologias digitais como instrumentos emancipatórios em si. Foi a rebelião presencial que desatou, tanto nos EUA como na Inglaterra e no Egito, a repressão aos fluxos digitais, com cancelamento de contas, bloqueio de circuitos e censura a mensagens subversivas. Justamente porque as ágoras digitais e físicas não estão separadas — ou seja, porque elas compõem a teia do capitalismo cognitivo —, não tem sentido tecer loas ao poder liberador das novas tecnologias sem reconhecer que o inimigo acusou o golpe precisamente porque o povo revoltoso ocupou a praça. Nenhuma ocupação da praça acontecerá sem fluxo de energia revolucionária digital. Nenhum trabalho de rede substituirá a ocupação da praça. 
 
7. As ocupações de 2011 revelam que a luta pelo cancelamento da dívida está para o capitalismo cognitivo assim como a luta pelo salário estava para o capitalismo industrial. Esta tese do autonomista italiano Gigi Roggero vai, me parece, ao centro da questão. Em todas as revoltas do mundo ocidental, tanto nos EUA como na Europa, as multidões rebeladas vão se dando conta de que nenhum aumento salarial ou mesmo garantia de emprego significará muito num contexto em que a manipulação dos títulos da dívida e a especulação com os capitais migrantes têm o poder de colocar toda uma economia nacional de joelhos. Passamos do que Michel Foucault chamou de sociedade disciplinar — aquele momento moderno no qual grandes aparatos (igreja, escola, fábrica, exército, hospital, prisão) constituíam um sujeito sob perene vigilância — àquilo que Gilles Deleuze chamaria de sociedade do controle, na qual a dominação já se dá através de formas móveis, imateriais, virtuais, em constante deslocamento, para as quais o modelo já não é a prisão (embora esta continue a cumprir o seu papel), mas a corporação. O capitalismo da era da sociedade disciplinar se baseou na produção e na propriedade. No capitalismo da sociedade de controle, a produção já foi exportada para alhures (China, Tailândia, Terceiro Mundo), enquanto o capital se dedica a vender serviços e comprar ações. A sociedade disciplinar era o espaço do sujeito vigiado. A sociedade de controle é o espaço do sujeito endividado. A chamada crise das hipotecas nos EUA não foi o resultado de um erro tangencial ou lateral ao sistema. Foi a expressão da lógica mesma, mais profunda, desse sistema, que só pode se reproduzir através da teia da dívida imaterial, impagável. Por isso, as massas autônomas, de Madri a Nova Iorque, do Cairo a Atenas, vão se dando conta, no interior da luta, de que se reafirma um princípio revolucionário por excelência: não se pode mudar nada sem, antes, mudar tudo. Esse axioma marxista é, hoje, mais verdadeiro que na época de Marx. 
 
* Agradeço a Giuseppe Cocco, Bruno Cava e Alexandre Nodari pelas referências bibliográficas e pela interlocução na preparação deste artigo.  

14/10/2011

Os indignados = Mobilização Mundial 15/11

951 cities – 82 countries



Os "indignados" espanhóis, os primeiros a lançar o o movimento de protesto em maio, convocaram manifestações para 15 de outubro em toda a Espanha e esperam ser o epicentro de uma mobilização maior organizada em todo o mundo.

Sob o nome "United for #globalchange", um site apresenta o mapa das mais de 400 mobilizações previstas para 15 de outubro em pelo menos 45 países.




Da Tanzânia ao Havaí, passando pelo movimento "Occupy Wall Street" que agita Nova York, os pontos vermelhos no mapa assinalam os lugares onde devem ocorrer os protestos.


"Estamos contentes com a visibilidade do movimento em Nova York", declarou Jon Aguirre Such, porta-voz da plataforma espanhola "Democracia Real Já!".




E no Brasil....


Manifestação marcada no Rio de Janeiro:


Praças pelo mundo afora despertaram. Milhões de pessoas cansadas de autoritarismo, de democracias voltadas para os ricos, da farra do capital financeiro.

Há 500 anos, o Brasil é um país saqueado por políticos corruptos, ruralistas e empreiteiros gananciosos. O governo brasileiro segue dominado pela mesma elite que levou nosso país a um dos primeiros lugares em desigualdade social.

Temos muita coisa para mudar!
Precisamos construir uma nova forma de fazer política, queremos decidir os rumos em assembleias livres, amplas e democráticas. Queremos levar o debate a todas as praças do país.
Somos contra a política suja das negociatas, de um sistema que concentra o poder nas mãos de uma minoria que não nos representa, corruptos cuja dignidade está a serviço do sistema financeiro; queremos uma Democracia Real com participação do povo nas decisões fundamentais do país, muito além das eleições, essa falsa democracia convocada a cada quatro anos.

Transparência!
Não somos palhaços. A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 do jeito como estão sendo organizados servem apenas para os interesses dos ricos e de seus governantes. Estamos vendo uma verdadeira “faxina social” em nosso país, com a remoção de milhares de famílias das regiões onde serão os megaeventos esportivos. Os benefícios atingiram uma pequena parte da população. O sigilo do orçamento das obras da Copa, a flexibilização das licitações e a postura submissa do Brasil à Fifa e à CBF são um banquete farto aos corruptos.

Quem disse que queremos crescer assim?
Queremos um Brasil ecologicamente sustentável. Atualmente a política de desenvolvimento da matriz energética segue a devastação do meio-ambiente e do desrespeito aos povos originários, como a construção de Belo Monte, um atentado aos povos do Xingu. Não concordamos com o caminho que o governo federal está propondo - que prevê a construção de pelo menos mais quatro usinas nucleares até 2030 - no desenvolvimento de uma energia cara e não segura: Enquanto o Brasil segue com as usinas nucleares de Angra dos Reis, mesmo após a calamidade nuclear de Fukushima, há pouco incentivo às novas tecnologias energéticas sustentáveis, como a solar, eólica, de marés, para as quais o país possui enormes potenciais.

Equilibrado e para todos.
O agronegócio segue como um risco ao futuro. O desmatamento desenfreado, anistiado e estimulado pelo novo Código Florestal, segue transformando o Brasil numa grande fazenda de soja. Não há uma política séria de reforma agrária, de soberania alimentar e de preservação do meio-ambiente. Segue a destruição da Amazônia, o uso abusivo de agrotóxicos e a propriedade da terra cada vez mais concentrada.

Educar ou manipular?
Estamos fartos de que os meios de comunicação, que deveriam servir a população como ferramenta de educação, informação e entretenimento, sejam usados como armas de manipulação de massas, trabalhando para os mesmos políticos corruptos que deflagram o país em benefício próprio

Vamos colorir as praças com diversidade!
Ainda sofremos discriminação pela cor da nossa pele, por nosso sexo ou opção sexual, por nossa nacionalidade, por nossa condição econômica. Queremos colorir as praças brasileiras com a diversidade do nosso país, que precisa ser livre, digno e para todos. Devemos ocupar, resistir e produzir decisões e encaminhamentos democráticos, onde a colaboração esmague a competição e a socialização destrua a capitalização. Não temos a ilusão de resolver todos os problemas em poucos dias, semanas, meses. Mas teremos dado o primeiro passo.

Chegou o momento em que todas as nações, todas as pessoas se unem e tomam as ruas para dizer: Basta! É hora de assumir a nossa responsabilidade e o nosso direito a uma vida livre e justa. 15 de outubro: um só planeta, uma só voz.

06/10/2011

Ocupando Wall Street

Quatro ativistas discutem os objetivos do acampamento no distrito financeiro de Nova York. "Deveria estar razoavelmente claro para qualquer um que olhe o que está se passando no movimento Ocupar Wall Street que o objetivo é acabar com a influência corrupta dos extremamente ricos sobre a política democrática. Wall Street controla a América e nós nos opomos a isso", diz o jornalista Jesse Alexander Meyerson, de 25 anos.

Em 17 de setembro, um grupo relativamente pequeno de pessoas frustradas com a crise financeira nos EUA e com a resposta que o governo do país deu a ela, acampou no Parque Zuccotti, na cidade de Nova York – próximo ao local onde estavam as Torres Gêmeas e próximo a Wall Street.
Uma semana depois, os nova-iorquinos começaram a acampar, 80 manifestantes foram presos e ao menos quatro foram atingidos por sprays de pimenta da polícia, quando marchavam pelo distrito financeiro de Nova York. Depois de duas semanas, milhares de manifestantes se dirigiram à Ponte do Brooklyn e 700 foram presos, enquanto marchavam diretamente pelo famoso vão que dá nos bairros nova-iorquinos de Manhattan e do Brooklyn.
A ação se tornou conhecida como “Ocupar Wall Street”, um trending topicque se tornou viral no Twitter, no Facebook e, como os organizadores esperavam, nas ruas.
Enquanto esse texto era escrito, pessoas de aproximadamente 70 outras cidades dos EUA estavam tomando ou planejando tomar as áreas próximas aos centros financeiros, e acampando, marchando e tomando decisões coletivas a respeito de como fazer o melhor uso deste momento, usando o “Ocupar Wall Street” como exemplo. Ações de solidariedade estão ocorrendo ou sendo planejadas no Reino Unido, na Alemanha, na Austrália e na Bósnia.
Mas os aspectos principais desse movimento de ocupação de Wall Street permanecem indefinidos. O grupo não produziu nenhum conjunto de demandas e se orgulha de reunir as pessoas com base numa questão, em vez de visando a um objetivo. 
A Al Jazeera falou com quatro ativistas que estão participando do movimento crescente de “ocupação” nos EUA, para ter algumas respostas a respeito de suas motivações, processos de tomadas de decisões, esperanças e dados demográficos. 
Elliot Tarver (E.T), 21 anos, é um dos que tem participado da Ocupação de Wall Street organizando o processo desde o planejamento do primeiro encontro, no começo de agosto, e tem estado nas manifestações quase diariamente.
Jesse Alexander Meyerson (JAM), 25, é um jornalista de Nova York que está trabalhando no comitê de apoio ao trabalho da Ocupação de Wall Street. 
Mohamed Malik (MM), 29 é ex-diretor executivo do Conselho de Relações Islamo-Americanas no sul da Flórida e hoje está desempregado, organizando o movimento Ocupação de Miami, no estado da Flórida, que está para ser lançado em 15 de outubro. 
Malcom Sacks (MS), 22, é um ativista nova-iorquino que tem participado da ocupação do Parque Zuccotti.
AlJazeera – Você poderia explicar, da maneira mais simples possível, o propósito do movimento Ocupar Wall Street? O que vocês estão comunicando e o que significa ter um protesto sem um objetivo definido?

ET: Ocupar Wall Street é um movimento crescente de pessoas que se juntaram por várias razões diferentes – é bastante amplo e não há qualquer estabelecimento explícito de demandas, embora implicitamente, ao se estar em Wall Street tomando a rua com todas as ações que temos feito, estas sejam pessoas que estão com raiva do modo como as corporações e a política e o dinheiro controlam as suas vidas e a sua maneira de viver e respirar e como funciona a sociedade, e que tem algum tipo de visão de um mundo diferente que existe além da ganância, do racismo, do patriarcalismo, do poder corporativo e da opressão política. 

MS: Esta é uma expressão da frustração diante do sentimento de que o processo político está sendo comandado por interesses econômicos e em particular pelas corporações gigantes.

MM: Quando as pessoas usam a palavra “ocupar”, o que elas querem dizer é: trazer as pessoas para o papel no qual elas produzam realmente decisões políticas, sobretudo no que concerne à economia e ao nosso bem estar. O modo como as instituições operam no tipo da sociedade em que vivemos não é muito condizente com altos níveis de participação democrática. Eu penso que as pessoas se sentem frequentemente deixadas de lado, desconectadas. Nós temos essas elites em nossa sociedade que na verdade nos fazem questionar se vivemos de fato numa democracia, ou se na verdade vivemos numa plutocracia – um país controlado pelas elites? Neste caso, por uma elite econômica. 

JAM: Deveria estar razoavelmente claro para qualquer um que olhe o que está se passando no movimento Ocupar Wall Street que o objetivo é acabar com a influência corrupta dos extremamente ricos sobre a política democrática. Eu realmente não acredito que as pessoas não entendam o que está em jogo aqui. Wall Street controla a América e nós nos opomos a isso.Só porque não há uma determinada carta de exigências passando de mão em mão, ou alguma lei a ser anulada, isso não deveria nos fazer acreditar que é de algum modo não unificado ou um gesto sem sentido. O sentido está claro.
[Ocupar Wall Street] não é apenas um protesto político, mas também um modelo de sociedade, o que eu penso que é o protesto político verdadeiramente interessante – isto é a própria demanda.
Houve movimentos sociais plenos de sentido antes, sem serem unificados, sem terem uma lista coerente de demandas, e houve movimentos, antes, nos quais as demandas levaram anos para serem desenvolvidas – ao passo que a ocupação [de Wall Street] durou 16 dias até agora.
Em 1949, seria inconcebível que, em 1968, camaradas negros tivessem o direito de votar...Assim como no fim de dezembro de 2010, não havia um só americano expert ou estudioso do Oriente Médio prevendo que, por volta de 25 de janeiro, a Praça Tahir, no Egito estaria fervendo de gente e que, não muitas semanas depois, Hosni Mubarak teria sido deposto.
AlJazeeraO alvo é claro: Wall Street e os americanos mais poderosos e ricos que tomam as decisões que causaram ou levaram adiante a crise econômica. Quem está participando?MS: Em geral, todos os sequelados da crise econômica, nos EUA, ao menos; é um tipo de resposta à crise econômica que finalmente está atingindo as pessoas. Eu penso que isso é um reflexo dessa crise. As pessoas não brancas nos EUA tem vivido num certo estado de crise, em termos de desemprego e falta de representação política e de falta de apoio do estado frente as suas dificuldades econômicas, nas últimas centenas de anos. Finalmente [esta crise, agora] aparece como crise para a maioria, inclusive a classe média e os trabalhadores brancos, e é por isso que temos visto pessoas brancas à frente das manifestações e ocupando espaço nesses protestos.ET: Mesmo que a maior parte do espectro demográfico do grupo tenha começado com a classe média branca e com estudantes de graduação, o quadro se tornou muitíssimo mais diverso. Mesmo que isso tenha mudado, as pessoas que se sentem apoderadas e que tem condicionado toda a sua vida para se sentirem confiantes, confortáveis, líderes de um grupo e para falarem para centenas de pessoas são mais aquelas pessoas oriundas de posições privilegiadas – homens brancos em particular – e eu penso que isso é algo que precisa ser fortemente enfrentado. 
AlJazeeraComo o grupo decide levar adiante alguma ação específica? Qual é o processo de tomada de decisão do grupo?
ET: O processo é a realização de assembleias gerais duas vezes por dia. Qualquer pessoa pode fazer uma proposta, uma declaração, ou ter um ponto a defender, e as coisas são decididas por consenso.. em vez de simplesmente ser eleito um grupo de líderes que irão decidir as coisas juntos, em seu pequena bolha fechada.Uma grande tarefa é traduzir a nós mesmos e nos tornarmos mais acessíveis às pessoas que não entendem de fato o que significa tomar decisões horizontalmente – o que significa que não há um líder único que tenha controle e diga a todos o que fazer. 
MS: Eu discordo. Estou hesitante em dizer que não há hierarquia, que não há liderança, porque eu realmente penso que há um núcleo de pessoas – jornalistas – que estão fazendo muito da organização e dando uma forma à imagem pública da coisa. Eu e outros camaradas temos encontrado resistência nas lideranças para incorporarem outras ideias ao trabalho e para pensarem criticamente a respeito do que está acontecendo. 
Tentamos falar com um dos camaradas da mídia a respeito do problema de não haver gente não branca no movimento e o do problema dessas pessoas não se sentirem confortáveis em participar, e houve resistência da parte deles em reconhecer isto. Eles afastam as críticas dizendo: “Se alguém quiser se envolver pode se envolver. Se quiserem ser representados, eles simplesmente vem e podem fazê-lo, também”. Eu penso que isso é denegar a dinâmica real do poder que está em jogo agora. Eu não estou certo de se este é um modo de a liderança afastar a responsabilidade ou se eles realmente não pensam que estão exercendo poder no movimento.

AlJazeeraVários sindicatos e organizações não lucrativas estão planejando uma marcha, no dia 5 de outubro, em apoio ao movimento Ocupar Wall Street. Só o sindicato dos trabalhadores no transporte público de Nova York representa 38 000 trabalhadores. O que isso significa e por que é importante?
ET: Eu acho que será realmente grande a marcha, em termos de mobilização das pessoas – pessoas provavelmente mais afetadas por um grande número de medidas de austeridade a que estão respondendo. Eu acho que isso tem um potencial de mudar o espectro demográfico do protesto – ao trazer trabalhadores e mais pessoas não brancas.

JAM: Eu acho que os sindicatos de trabalhadores e outros grupos viabilizam e fornecem a engrenagem para as necessidades daqueles que não têm voz, para os empobrecidos, etc., reconhecerem que esse movimento Ocupar Wall Street que está chamando a atenção de todo o país e todo o mundo tem pessoas realmente comprometidas, que não têm se sentido mobilizadas a dar outras respostas à crise.
De um modo mais cínico e insensível, pode-se suspeitar de que o que as grandes instituições querem é se aproximar, cooptar o movimento, impor a sua agenda a quem está na luta. Mas no meu modo de ver mais generoso, o que eu diria é que os sindicatos ajudariam esse movimento a crescer e expandir e a conseguir criar um movimento social ampliado, porque eles reconhecem que estamos em busca da mesma coisa: a classe oprimida e o desmantelo do poder dos ricos sobre a política.
AlJazeera: Olhando para a frente, o que podemos esperar do Ocupar Wall Street?
MS: Alguém ontem foi citado, dizendo: “ficaremos aqui enquanto pudermos”. Mas isso significa que, assim que eles disserem “vocês não podem ficar”, todo mundo vai embora? Você não pode de fato dizer qual a direção que essa coisa está tentando tomar, ela está simplesmente buscando existir. Eu sou cético a respeito de onde isso pode dar, mas apoio o movimento, porque penso que está claro que a sua existência, mesmo que não vá a lugar algum, é de muita importância.
ET: Agora está crescendo diariamente e o seu fim não parece próximo.

15/07/2011

A Doutrina do Choque

The Shock Doutrine

"Um estado de choque não é só o que nos passa quando sucede algo de mal. É o que nos passa quando perdemos nosso ponto de referência. Quando perdemos as nossas vivências, quando nos encontramos desorientados. O que nos mantém orientados, alertas e alheados ao choque é a nossa história."

 

O excelente documentário
A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre,
baseado no livro de Naomi Klein, descreve como a exploração social e econômica do neoliberalismo foi utilizada em catástrofes, guerras e crises financeiras.


Trailler:

Na íntegra:








Entrevista com a autora do livro que originou o documentário,

-  The Shock Doutrine -

O golpe de Pinochet no Chile. 
O massacre da Praça de Tiananmen. O Colapso da União Soviética. O 11 de setembro de 2001. A guerra contra o Iraque. O tsunami asiático e o furacão Katrina. O que todos esses acontecimentos têm em comum? É o que a ativista canadense antiglobalização Naomi Klein explica em seu novo livro The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism [A doutrina do choque: O auge do capitalismo do desastre] – ainda sem tradução para o português. Naomi Klein em uma longa entrevista para o sítio La Haine, 27-09-2007, afirma que a história do livre-mercado contemporâneo foi escrita em choques e que os eventos catastróficos são extremamente benéficos para as corporações. Ao mesmo tempo a autora revela que os grandes nomes da economia liberal, como Milton Friedman, defendem o ‘capitalismo do desastre’.


O que é exatamente a doutrina do choque?

A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas, a idéia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’.

É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque. E não significa que apenas os direitistas em determinada época tenham sido os únicos que exploraram essa oportunidade com as crises, porque essa idéia de explorar uma crise não é exclusividade de uma ideologia em particular. Os fascistas também se aproveitaram disso, os comunistas também o fizeram.

Explique quem é Milton Friedman, a quem ataca energicamente nesse livro?

Bem, ataco Milton Friedman porque é o símbolo da história que estou abordando. Milton Friedman morreu no ano passado. Morreu em 2006. E quando morreu, vimos como o descreveram em tributos pomposos como se fosse provavelmente o intelectual mais importante do período pós-guerra. Não apenas o economista mais importante, mas o intelectual mais importante. E é verdade que se pode construir um argumento contundente nesse sentido. Foi conselheiro de Thatcher, de Nixon, de Reagan, do atual governo Bush. Deu aulas a Donald Rumsfeld no início de sua carreira. Assessorou Pinochet nos anos setenta. Também assessorou o Partido Comunista da China no período chave da reforma ao final dos anos oitenta.
Sendo assim, teve uma influência enorme. Falei outro dia com alguém que o descreveu como o Karl Marx do capitalismo. E acredito que não é uma comparação ruim, mesmo que esteja segura de que Marx não gostaria nem um pouco. Mas foi realmente um popularizador dessas idéias.

Tinha uma visão de sociedade na qual o único papel aceitável para o Estado era o de implementar contratos e proteger fronteiras. Tudo o demais deve ser entregue por completo ao mercado, seja a educação, os parques nacionais, os correios, tudo o que poderia produzir algum lucro. E realmente viu, suponho, que as compras – a compra e a venda – constituem a forma mais elevada de democracia, a forma mais elevada de liberdade. O seu livro mais conhecido é Capitalism and Freedom [Capitalismo e liberdade].

Quando da sua morte no ano passado, percebemos o como essas idéias radicais de livre mercado chegaram a dominar o mundo, de como varreram a antiga União Soviética, a América Latina, a África, de como essas idéias triunfaram durante os últimos trinta e cinco anos. E isso me impressionou muito, porque já estava escrevendo esse livro. Nessas idéias - que tanto se falou quando da morte de Friedman -, nunca ouvimos falar de violência, nunca ouvimos falar de crises e nunca ouvimos falar de choques. Ou seja, a história oficial é de que estas idéias triunfaram porque desejávamos que assim o fosse, que o Muro de Berlim caiu porque as pessoas exigiram ter seus Big Macs junto com a sua democracia. E a história oficial do auge dessa ideologia passa por Margaret Thatcher dizendo: “Não há alternativa”, à Francis Fukuyama afirmando que “a história terminou, o capitalismo e a liberdade caminham juntos”.

Portanto, o que procuro fazer nesse livro é contar a mesma história, a conjuntura crucial nos qual essa ideologia entrou com força, mas re-introduzo a violência, re-introduzo os choques e, digo que existe uma relação entre os massacres, entre as crises, entre os grandes choques e os duros golpes contra vários países e a capacidade de imposição de políticas que são rejeitadas pela grande maioria das pessoas desse planeta.

Você fala de Milton Friedman. Qual a relação com a ‘Escola de Chicago’?

A influência de Milton Friedman provém do seu papel como o popularizador real do que é conhecido como a ‘Escola de Chicago’. Ele foi professor na Universidade de Chicago. Estudou na Universidade de Chicago e na seqüência foi professor nessa instituição. O seu mentor foi um dos economistas mais radicais do livre mercado da nossa época, Friedrich Von Hayek que foi professor na Universidade de Chicago.

A Escola de economia de Chicago representa essa contra-revolução contra o Estado de bem estar social. Nos anos cinqüenta, Harvard e Yale e as oito escolas mais prestigiadas dos EUA estavam dominadas por economistas keynesianos, pessoas como John Kenneth Galbraith, que acreditava que depois da grande depressão, era crucial que a economia funcionasse com uma força moderadora do mercado. E foi a partir daí que nasceu um ‘novo contrato’, a do Estado de bem estar social e tudo isso que faz com que o mercado seja menos brutal e se tenha uma espécie de sistema público de saúde, seguro desemprego, assistência social, etc.

A importância do Departamento de Economia da Universidade de Chicago é que realmente ele foi um instrumento de Wall Street, que financiou muito, muito consideravelmente a Universidade de Chicago. Walter Wriston, o chefe do Citibank era muito amigo de Milton Friedman e a Universidade de Chicago se converteu em uma espécie de ponto de partida da contra-revolução contra o keynesianismo e o novo contrato social com o objetivo de desmanchá-lo.

Qual a relação da Escola de Chicago com o Chile?

Depois da eleição de Salvador Allende, a eleição de um socialista democrático, em 1970, houve um complô para derrubá-lo. Nixon disse genialmente: “Que a economia grite”. E o complô teve numerosos elementos, embargos, etc e finalmente o apoio para o golpe de Pinochet em setembro de 1973. Escutamos muito falar nos ‘Chicago Boys’ no Chile, mas não sabemos detalhes sobre o que foram na realidade.

O que faço no livro é contar esse capítulo da história. (...) Em 11 de setembro de 1973, enquanto os tanques rodavam pelas ruas de Santiago e o palácio presidencial ardia e Salvador Allende era morto, um grupo dos assim chamados ‘Chicagos Boys’, assumia o controle da economia. Economistas chilenos que haviam sido levados para a Universidade de Chicago para estudar com bolsas do governo dos EUA como parte de uma estratégia deliberada para orientar a direita latino-americana.

Tratou-se de um programa ideológico financiado pelo governo dos EUA, parte do que o ex-ministro do exterior chama de “um projeto de transferência ideológica deliberada”, ou seja, levar esses estudantes a uma escola distante, na Universidade de Chicago e doutriná-los num tipo de economia que era marginal nos EUA na época e enviá-los de volta para casa como guerreiros ideológicos.

Falemos do choque no sentido da tortura...

Começo o livro estudando dois laboratórios para a doutrina do choque. Como disse anteriormente, considero que há diferentes formas de choque. Um deles é o choque econômico e o outro o choque corporal, os choques nas pessoas. E nem sempre acontecem juntos, mas estiveram presentes em conjunturas cruciais. Assim que um dos laboratórios para essa doutrina foi a Universidade de Chicago nos anos cinqüenta, quando todos esses economistas latino-americanos foram treinados para se converter em terapeutas do choque econômico. Outro – e não se trata de uma espécie de grandiosa conspiração – foi a Universidade McGill nos anos cinqüenta.

A Universidade McGill foi o ponto de partida para os experimentos que a CIA financiou para aprender sobre tortura. Quero dizer, foi chamado ‘controle da mente’ na época ou ‘lavagem cerebral’. Agora compreendemos, graças ao trabalho de gente como Alfred McCoy, que consta em seu programa que o que realmente pesquisavam nos anos cinqüentas sob o programa MK-ULTRA, foram experimentos de eletrochoques extremos, LSD, PCP, extrema privação sensorial, sobrecarga sensorial, tudo isso que vemos hoje utilizados em Guantánamo e Abu Ghraib. Um manual para desfazer personalidades, para a regressão total de personalidades. (...) McGill realizou parte dos seus experimentos fora dos EUA, porque assim considerava melhor a CIA.

Em Montreal?

Sim. McGill em Montreal. Na época então, o chefe de psiquiatria era um individuo chamado Ewen Cameron. Na realidade se tratava de um cidadão estadunidense. Foi anteriormente chefe da Associação de Psiquiatria Estadunidense. Foi para McGill para ser chefe de psiquiatria e para dirigir um hospital chamado de Allan Memorial Hospital, que era um hospital psiquiátrico. Recebeu financiamento da CIA e transformou o Allan Memorial Hospital em um laboratório extraordinário para o que agora consideramos técnicas alternativas de interrogatório. Dopava os seus pacientes com estranhos coquetéis de drogas, como LSD e PCP. Os fazia dormir, uma espécie de estado de coma durante um mês. Colocou alguns dos seus pacientes em uma situação de privação sensorial extrema e a intenção era que perdessem a idéia de espaço e tempo. Ewen Cameron dizia acreditar que a doença mental poderia ser tratada tomando pacientes adultos e reduzindo-os ao estado infantil. (...) Foi esta a idéia que atraiu a atenção da CIA, a de induzir deliberadamente uma regressão extrema.

Você falou do Chile, falemos do Iraque da privatização da guerra no Iraque - O governo iraquiano anulou a licença da companhia de segurança estadunidense Blackwater.

Esta é uma notícia extraordinária. Quero dizer, é a primeira vez que uma dessas firmas mercenárias é realmente considerada responsável. Como escreveu Jeremy Scahill em seu incrível livro ‘Blackwater: The Rise of the [Word´s] Most Powerful Mercenary Army’, o verdadeiro problema é que nunca houve processos. Essas companhias trabalham em uma ‘zona cinzenta’, ou são boy scouts e nada lhes acontecia. (...) Isso significa que se o governo iraquiano realmente expulsar Blackwater do Iraque, poderia ser um fato e tanto para submeter essas companhias à lei e questionar toda premissa de porque até agora se permitiu que se tivesse lugar este nível de privatização e de ilegalidade.

(...) Algo em que eu penso pela pesquisa que eu fiz para o livro No Logo se entrecruza com esta etapa do capitalismo do desastre em que estamos metidos agora. Rumsfeld [ex-Secretário de Defesa de Bush] aproveitou a revolução de percepção das marcas dos anos noventa, na qual a projeção de marcas corporativas – no sentido do que descrevo em No Logo – em que essas companhias deixaram de produzir produtos e anunciaram que já não produziam produtos, mas produziam marcas, produziam imagens e deixam que outros, terceirizados, façam o trabalho sujo de fabricar as coisas. E essa foi a espécie de revolução na sub-contratação e esse foi o paradigma da corporação ‘vazia’.

Rumsfeld se encaixa nessa tradição. E quando se tornou Secretário de Defesa, agiu como age um novo executivo da nova economia que se viu na tarefa de reestruturações radicais. Mas, o que fez foi adotar essa filosofia da revolução no mundo corporativo e aplicá-la à forças-armadas. (...) essencialmente o papel do exército é criar a percepção de marca, é comercializar, é projetar a imagem de força e dominação no globo – porém sub-contratando cada função, da atenção à saúde – administrando a atenção de saúde aos soldados – à construção de bases militares, que já estava acontecendo durante o governo de Clinton, ao papel que Blackwater desempenha e companhias como DynCorp, que como se sabe, destacou Jeremy, participam realmente em combates.

Comente a destruição do Iraque, do ‘Choque e Pavor’, da terapia econômica do choque de Paul Bremer, o choque da tortura, assim como a junção de todas essas coisas no Iraque.

Como já disse, no Chile, vimos esta fórmula do triplo choque. E eu penso que vemos a mesma fórmula do triplo choque no Iraque. Primeiro foi a invasão, a invasão militar de ‘choque e pavor’ – muitas pessoas pensam no tema apenas como se tratasse de um montão de bombas, um montão de mísseis, mas é realmente uma doutrina psicológica que em si é um crime de guerra, porque se diz que na primeira Guerra do Golfo, o objetivo foi atacar a infraestrutura de Sadam, mas sob uma campanha de ‘choque e pavor’, o objetivo é a sociedade em escala maior. È um princípio da doutrina ‘choque e pavor’.

Agora, o ataque de sociedades em escala maior é castigo coletivo, o que constitui crime de guerra. Não é permitido que os exércitos ataquem às sociedades em escala maior, apenas é permitido que ataquem os exércitos. A doutrina é verdadeiramente surpreendente, porque fala de privação sensorial em escala massiva. Fala de cegar, de cortar os sentidos de toda uma população. E o que vimos durante a invasão, o apagão de luzes, o corte de toda a comunicação, o emudecimento dos telefones e logos os saques, que não acredito que façam parte da estratégia, mas imagino que não fazer nada faz parte da estratégia, porque sabemos que houve uma série de advertências que falava em proteger os museus, as bibliotecas e nada se fez. E depois temos a famosa declaração de Donald Rumsfeld quando foi confrontado com este fato: “Essas coisas passam”.

(...) O objetivo, usando a famosa frase do colunista do New York Times, Thomas Friedman, não é o de construir a nação, mas sim “criar a nação”, que é uma idéia extraordinariamente violenta.

Nova Órleans?

Nova Órleans é um exemplo clássico do que eu chamo de doutrina do choque do capitalismo do desastre porque houve um primeiro choque que foi o alagamento da cidade. E como se sabe, não foi um desastre natural. E a grande ironia do caso é que realmente foi um desastre dessa mesma ideologia de que estávamos falando, o abandono sistemático da esfera pública. Eu penso que cada vez mais vamos ver acontecimentos assim. Quando se têm vinte e cinco anos de contínuo abandono da infra-estrutura pública e do esqueleto do Estado – o sistema de transporte, as estradas, os diques. A sociedade de engenheiros civis estadunidense calculou que colocar em condições o esqueleto do Estado custaria 1,5 bilhões de dólares. Portanto, o que temos é uma espécie de tormenta perfeita, na qual o debilitado Estado frágil se entrecruza com um clima cada vez pior, que diria que também faz parte desse mesmo frenesi ideológico em busca de benefícios a curto prazo e crescimento a curto prazo. E quando estes dois entram em coalizão, vem um desastre. É o que ocorreu em Nova Órleans.

O que a mais horrorizou ao pesquisar a doutrina do choque?

Horrorizou-me o fato que se tem por aí muita literatura que eu não sabia que existia e que os economistas a admitem. Uma quantidade de citações de propugnadores da economia de livre-mercado, todos desde Milton Friedman a John Williamson, que é o homem que cunhou a frase ‘Consenso de Washington’, admitindo entre eles, não em público, mas sim entre eles, como em documentos tecnocráticos, que nunca conseguiram impor uma cirurgia radical do livre-mercado se não acontece uma crise em grande escala, ou seja, as mesmas pessoas que propugnam que o mito central da nossa época, que a democracia e o capitalismo caminho juntos, sabe que se trata de uma mentira e o admitem por escrito.

08/06/2011

#Revolución se escribe con hashtag???

Hasthag???
É aquele #antes da palavra que faz com ela seja "contabilizada" por assim dizer, ou melhor, que faz com que determinada #palavra ou #citação, dê volume ao que se quer chamar a atenção.

O exemplo mais marcante #iranelection que denunciou os inúmeros abusos e a suposta fraude nas últimas Eleições Iranianas (2010).

E o mais recente #spanishrevolution que centraliza as informações e reivindicações dos Indignados espanhóis que ocupam as principais praças de seu país lutando pela manutenção dos seus direitos sociais, trabalho, respeito...

Agora, se #Revolución se escribe con hashtag??? ainda é cedo para se precisar, mas que esta nova forma de comunicar reverbera aos quatro cantos, disso não há dúvidas.



02/06/2011

Hay otro mundo en la barriga de este mundo

Mais Galeano _ En España




"No sé que va a pasar y tampoco me importa mucho lo que está pasando... me importa el tiempo que es y lo que este tiempo anuncia que será"
"Y a mí que mierda me importa lo que nos espera"
"Hazañas que consisten en arruinar el mundo, un mundo al revés que recompensa a sus arruinadores"
"Los jóvenes tienen la culpa de no creer en los redondos... o son los redondos los que tienen la culpa de que no crean en ellos".
"Todos iguales en la lucha de una vida diferente"
"Para que mierda voy a vivir sino es porque creo en algo mejor que lo mío que es lo que me espera"
"Los intelectuales me rompen las bolas, aquellos que divorcian la cabeza del cuerpo"
"Cuándo la razón se divorcia del corazón te convido para el Temblor"
"Yo no quiero ser una cabeza que rueda por los caminos"
"La razón genera monstrous" Goya
"Esa fusión contradictoria entre lo que siente y lo que se piensa"
"Si... sabio, haya él con su sabiduría"
"La cabeza que piensa solita es muy peligrosa".

27/05/2011

"Dois séculos de conquistas estão sendo jogados no lixo"

Crise na Europa
Galeano fala sobre o movimento que leva milhares de 
jovens as ruas da Espanha



Em entrevista ao programa "Singulars", da Televisão da Catalunha (TV3), o escritor uruguaio Eduardo Galeano fala sobre as manifestações dos últimos dias que levaram milhares de jovens para as ruas de diversas cidades espanholas. Galeano esteve em Madri e pode presenciar ao vivo as mobilizações na Porta do Sol.


Alguns trechos da entrevista:
"Há hoje em quase toda a América Latina um problema visível e preocupante que é o divórcio entre os jovens, as novas gerações, e o sistema político, o sistema de partidos vigente. Eu não reduziria a política à atividade dos partidos, por que ela vai muito mais além, mas isso é preocupante mesmo assim".

"Nas últimas eleições chilenas, por exemplo, 2 milhões de jovens não votaram. E não votaram porque não se deram ao trabalho de fazer o registro eleitoral. Suponho que a maioria não fez o registro por que não acredita nisso. E me parece que isso não é culpa dos jovens. Neste sentido, gostei muito de ter presenciado essas manifestações que tive oportunidade de ver na Porta do Sol".

"Um dos lemas que ouvi era 'com causa e sem casa', o que é muito revelador da situação atual. Muitos daqueles jovens ficaram sem casa e sem trabalho. Isso deve ser levado em conta. Esse é um dos dramas do nosso tempo. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para a classe trabalhadora, estão sendo jogados na lata de lixo por governos que obedecem à uma tecnocracia que se julga eleita pelos deuses para governar o mundo".

"É uma espécie de governo dos governos, como este senhor que agora parece que se dedica a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido por isso. É essa estrutura de poder, muitas vezes invisível, que de fato manda. Por isso, quando se consegue aglutinar vozes capazes de dizer 'basta' a primeira coisa a fazer é ouvi-las com respeito, sem desqualificá-las de antemão e saber esperar. Esses jovens não parecem esperar ordens de ninguém. Agem espontaneamente, aliando razão à emoção. Como vai acabar isso? Não sei. Talvez acabe logo, talvez não. Vamos ver".

"O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o êxito acima de todas as virtudes. Ele é uma fonte de virtudes. Em troca, condena o fracasso. Perder é o único pecado para o qual, no mundo de hoje, não há redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar. Os dois homens mais justos da história da humanidade, Sócrates e Jesus, morreram condenados pela Justiça. Os mais justos foram condenados pela Justiça. E nos deixaram coisas muito importantes como amor e coragem".


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