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05/06/2011

Remixofagia - Alegorias de uma revolução

...revolução cultural provocada pela internet. 

  1. Direito à comunicação como parte fundamental da cidadania.
  2. Construção de um mundo melhor, sustentável e solidário.
  3. Postura construtiva e pacífica com uma visão positiva de futuro.
  4. Uso prioritário de tecnologias livres (softwares, aplicativos, ferramentas).
  5. Prática de padrões abertos de desenvolvimento.
  6. Adesão às licenças abertas que permitem a livre reprodução, reutilização e circulação dos conteúdos produzidos (creative commons ou copyleft).

“Tecnologia é algo que vive dentro dos seres humanos e suas culturas. Existe uma força independente que vive dentro da cultura, e a cultura expressa essa força, e essa força expressa cultura. Elas são como o Yin e o Yang, em sua relação todo o tempo”.

A manifestação do desejo e necessidade do ser humano tornar-se mais próximo, resultando na unidade, que revela então o verdadeiro “poder”, não centralizado, dividido igualmente para todas as pessoas. E assim, uma nova cultura começa a se expressar novamente…. Ciclos  e movimentos do Yin e do Yang, por assim dizer.

17/03/2011

A Nossa Casa

Na nossa casa amor-perfeito é mato
E o teto estrelado também tem luar
A nossa casa até parece um ninho
Vem um passarinho pra nos acordar
Na nossa casa passa um rio no meio
E o nosso leito pode ser o mar
A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

 
A nossa casa é de carne e osso
Não precisa esforço para namorar
A nossa casa não é sua nem minha
Não tem campainha pra nos visitar
A nossa casa tem varanda dentro
Tem um pé de vento para respirar

02/12/2010

Chávez responde al cantante español Alejandro Sanz

El cantante español Alejandro Sanz pidió permiso al presidente de Venezuela, Hugo Chávez, para cantar en el país. En el mensaje publicado en la página de Twitter de Sanz, el cantante le expresa al presidente su deseo de cerrar su gira de concierto en el país pero además le dice que tiene que haber un compromiso de su parte.

"Presidente Chávez, quiero ir a cantar a su país. ¿Me lo permite? ¿Me da su palabra de que no le pasara nada ni a mi publico ni a mi gente ni a la empresa ni a mi? Si usted me da permiso y nos da su palabra de que nada va a pasar yo cierro mi gira en Venezuela. Usted tiene la palabra" 


RESPUESTA:

Señor Alejandro: ¿sabe usted lo que significa ser esclavo sin cadenas? Esclavo sin cadenas, es simplemente continuar siendo esclavos sin cargar los grilletes… ¿Porqué razón no te has preguntado todavía, del por qué Venezuela es atacada con artillería pesada solamente por las potencias occidentales? 

¿O será que formas parte de ellos y te haces el distraído? 

Infórmate amigo mío, y pregúntate porqué Colombia es considerada una de las naciones donde existe más desigualdad por culpa de gobiernos que sólo mandan para unos pocos y las riquezas son distribuidas para unos privilegiados; mientras Venezuela es reconocida como el primer país de la región en cuanto a bajar la pobreza extrema, de manera drástica en el gobierno de Chávez Frías. 

¿No te llamó nunca la atención que después que nuestro país se volcó a la izquierda, automáticamente se comenzaron a unir la mayoría de los pueblos de América Latina, en una clara señal de lo que querían los pueblos?...

¿Pides permiso para venir a cantar? 
¿No te da vergüenza decir eso? 

Es un país democrático donde cualquier persona puede decir lo que se le venga en gana y no como te cuentan. 
Te diré algo: La mayoría de los latinoamericanos que levantaban su voz por intermedio del canto, en señal de protesta por las infinitas injusticias que sufrían sus pueblos por culpa de dictaduras asesinas de derecha… nunca pidieron permiso para arriesgar su vida en nombre de los miserables, y en esos tiempos sí que arriesgaban el pellejo… 

Alguna vez te dignaste escuchar algún poema o prosa convertidos en canción de Don Atahualpa Yupanqui… 

¡Sí!, aquél que lo llamaban el padre de la canción folclórica latinoamericana… 

La dictadura fascista argentina lo persiguió y tuvo que asilarse en Europa, por si no lo sabes es el mismo que en París compartió escenario con alguien llamada Edith Piaf… 

Nunca te contaron del cantautor Víctor Jara, que la dictadura chilena de Pinochet, le cortó las manos para que no volviera jamás a tocar su guitarra acompañando su canto y, no conformes con ello, lo acribillaron indefenso en el Estadio de fútbol de Santiago… 

Seguramente conociste a Mercedes Sosa, “la Negra del Sur” como la llamaban todos los pueblos latinoamericanos… 

Si no la conociste, te invito a que te metas en Youtube y la escuches cantando: “Solo le pido a Dios” y después me cuentas… 

A esta cantautora pueblo, cantando en la ciudad de La Plata en el año '79 la dictadura fascista la detuvo a ella y a todos los que osaron ir a verla cantar. También tuvo que exiliarse en Europa en París y Madrid, para que no la mataran… 

Leíste alguna vez a Mario Benedetti el que nos decía que “El Sur también existe”, al igual que su compatriota Alfredo Zitarrosa aquél del “Violín de Becho”… 

Ellos también se vieron obligados a exiliarse en Europa por amenazas de muerte… 

A León Gieco, un general le puso una pistola en la cien, diciéndole:”La próxima vez que vengas a cantar a la universidad de Luján y cantes esa canción te voy a pegar un tiro en la cabeza”, refiriéndose a “Hombres de Hierro”… 

Horacio Guaraní se tuvo que marchar también al igual que la Nacha Guevara, que le colocaron una bomba en un teatro mientras cantaba, los fascistas argentinos… 

¡¡Si hasta el tango Cambalache lo prohibieron en las emisoras de radio la dictadura argentina!!… Y NUESTRO INIGUALADO CANTAUTOR ALÍ PRIMERA, QUIEN FUÉ VETADO TODA SU VIDA EN LOS MEDIOS VENEZOLANOS. 

¡¡Anímate!!...Y escribe una canción, de las miserias del mundo… 

Háblanos de los olvidados de Haití, de los miles y miles de muertos en Irak, de los de Afganistán, de la hambruna del África, de la desnutrición en la América pobre, de la desigualdad abismal existente entre ricos y pobres, de las interminables mujeres asesinadas en ciudad Juárez, de los niños obligados a trabajar robándoseles lo único que vale la pena vivir en esta loca vida, “su niñez”… 

Infórmate, escribe, no vengas solo a cantar…y a hacer un show mediático, sé honesto, no engañes a tus seguidores. 

Recorre las villas miserias de pueblos que claman por igualdades, las favelas de los sin techo…los 40 millones de pobres en USA, hoy convertidos en 50 millones de excluidos. 

Y después me cuentas, si todavía te quedan fuerzas de criticar a Chávez…

05/11/2010

SUICÍDIO MORAL


O suícidio moral da humanidade, ao esquecer a ética para chegar à estética.

Que mundo é este em que estamos vivendo?

Que valores estamos pregando?

Em que moral estamos nos embasando?


Que cada um de nós tire suas próprias conclusões, deste que bem poderia ser um documento muito representativo sobre aquilo no qual estamos nos convertendo, aos poucos, sem sentirmos.

Um curta de cerca de 5 minutos. Se intitula "A Fotógrafa":

03/11/2010

Abaixo a xenofobia e o racismo!


 Poucos países no mundo passaram 
pela rica interação de diferentes raças e
etnias tanto quanto o Brasil. 


*** Nossa riqueza cultural consiste nisso *** 


Imagem: OPERÁRIOS de Tarsila do Amaral em sua considerada "fase social", ao retornar da URSS em 1933.

01/11/2010

A VIDA FOI EM FRENTE... E VOCÊ SIMPLESMENTE NÃO VIU QUE FICOU PRA TRÁS


O resultado das Eleições Presidenciais deste domingo mostraram que o maior adversário de Lula, e agora de Dilma, continua sendo a velha mídia conservadora do Brasil. Aquela mesma que apoiou a Ditadura, elegeu o Collor, e tão bem defendeu e se aliou ao neoliberalismo de FHC, e que foi responsável pelo Segundo Turno em 2006 e agora em 2010.

A vitória de Dilma Roussef é um recado da sociedade às forças conservadoras que tentaram, e continuaram tentando, transformar as ações do governo à mera política assistencialista, continuaram mascarando a realidade dos fatos, negando a visibilidade e respeito que o país vem conquistando no cenário internacional. E que se sentem ameaçadas por verem seus arraigados privilégios, darem lugar a uma nova divisão social.

Além de Dilma, e do povo brasileiro, um específico segmento saiu vitorioso deste processo, a mídia alternativa, jornalistas, estudantes, professores, intelectuais em geral  que através de seus blogs, sites, revistas, manifestos, conseguiram sobressair ao senso comum, denunciando as manobras da chamada mídia golpista, desmistificando concepções erroneamente criadas, denúncias infundadas e dados manipulados.
 

Você é o que você consome, come, lê e assiste!
Não há dúvidas de que você é composto daquilo que se nutre. 
Se você só lê revistas de moda e assiste novelas, pouco terá acrescentar ao debate político. 
Se você só dá audiência aos programas jornalísticos da TV Globo, é bem provável que sintonize com as posições ideológicas que estes propagam, e considere o Arnaldo Jabor o suprasumo da inteligência debochada.
O mesmo vale para os leitores ávidos e defensores de uma ligação mais estreira Brasil-Estados Unidos que identificam no Diogo Mainardi uma espécie de guru da política brasileira.

____________________________

A VIDA FOI EM FRENTE... 
E VOCÊ SIMPLESMENTE NÃO VIU QUE FICOU 
PRA TRÁS
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E cai no samba, fui comemorar a vitória histórica, que teve oposição até do Vaticano (argh), num barzinho clássico de samba em Copacabana/RJ.

O BIP BIP, reduto do samba carioca, inaugurado no dia do AI 5, período maximo da ditadura militar brasileira, trazendo um pouco de cor para um dos dias mais sombrios da nossa história. E ali se manteve firme, criando uma especie de núcleo da resistência do samba e da esquerda na cidade maravilhosa. 

Alfredinho, o dono do Bar, de cara as vezes amarrada, mas de um coração que nem cabe nele de tão grande, discursou para o seu público mais fiel, e acostumado a sua intensa oratória. Lembrou a trajetória do Partido que ajudou a construir, que subia o morro com seus panfletinhos de xerox, e que eram vistos na zona sul do Rio de Janeiro, como bandidos. E hoje esta no Poder, ajudando a transformar este país, e a integrar seus irmãos sul-americanos numa consoante de esperança e mudança. 

Emocionou e arrepiou a todos. Valeu a noite, e recompensou toda essa exaustiva campanha eleitoral, da qual poderemos ter a confiança e tranquilidade de que de janeiro em diante, teremos a continuidade de um projeto político pensando para todos brasileiros, não mais voltado a uma classe economicamente dominante e que ocupava praticamente todas as vagas das universidades federais desse país, perpetuando a diferença social, e a exclusão ainda tão enraizada como normal nas mentalidades da classe média e alta de nossa sociedade.

Parabéns Dilma!

09/03/2010

CÉU, SOL, SUL, TERRA E COR


Em mais um momento típico de "saudade do pago"(rs)... bateu aquela nostalgia ao saber da morte do cantor e compositor sulista Leonardo. Lembrei-me de diversas noitadas no Largo da Epatur em Porto Alegre, quando o cantante, embalando a multidão vermelha (naquele tempo a esquerda parecia ser mais vermelha e mais unida), emocionando a todos com a sua canção "Céu, Sol, Sul, Terra e Cor " praticamente o segundo hino do Rio Grande.



Eu quero andar nas coxilhas
Sentindo as flexilhas das ervas do chão,
Ter os pés roseteados de campo,
Ficar mais trigueiro com o sol de verão.

Fazer versos cantando as belezas
Desta natureza sem par.

E mostrar para quem quiser ver
Um lugar pra viver sem chorar
(E mostrar para quem quiser ver
Um lugar pra viver sem chorar!)

É o meu Rio Grande do Sul
Céu, sol, sul, terra e cor!

Onde tudo o que se planta cresce
E o que mais floresce é o amor.

É o meu Rio Grande do Sul
Céu, sol, sul, terra e cor!
Onde tudo o que se planta cresce
E o que mais floresce é o amor.

Eu quero me banhar nas fontes
E olhar horizontes com Deus,
E sentir que as cantigas nativas
Continuam vivas para os filhos meus.

Ver os campos florindo e
Crianças sorrindo felizes a cantar!
E mostrar para quem quiser ver
Um lugar pra viver sem chorar

E mostrar para quem quiser ver
Um lugar pra viver sem chorar!


06/03/2010

O poder da cultura na integração sul-americana

* Mariza Veloso


Não há como discordar do sociólogo José Maurício Domingues quando se reporta à questão do regionalismo na América do Sul afirmando que “pouco a pouco o novo regionalismo finca raízes societárias mais fundas entre nós. Dar-lhes organicidade e institucionalizá-las de forma inovadora é ainda um desafio”. Acredito que as “forças vivas” da sociedade são fundamentais nesse processo, e entre tais forças estão a cultura e o respeito à diversidade de suas manifestações, o que não deve ser visto como um direcionamento à fragmentação.

As sociedades sul-americanas sempre foram e tornaram-se, nos tempos atuais, cada vez mais complexas e plurais. A abertura do mercado de bens econômicos e bens simbólicos – longe da utopia homogeneizadora dos Estados modernos que pretendiam arquitetar uma identidade univocacional, ou dos prenúncios “achatadores” da globalização – ensejou que os sujeitos se tornassem cada vez mais “desencaixados”, o que pode significar uma maior mobilidade física e identitária.

Porém, se de um lado esse “desencaixe” pode significar desfiliação dos indivíduos ao todo social, de outro pode também significar novas modalidades de trocas sociais entre os indivíduos.

É importante enfatizar que, nos anos 1980 e 1990, o processo de redemocratização impulsionou múltiplas dinâmicas sociais de “revitalização” da sociedade, o que permitiu uma redefinição da identidade sul-americana, revendo-se a sua posição como subdesenvolvida, subordinada e subalterna em relação às potências internacionais e permitindo, assim, aos seus intelectuais e a outros agentes sociais assumirem uma fala mais altiva e independente.

De forma marcante, é precisamente na década de 1990 que ocorre a consolidação robusta e renovada de movimentos sociais latino-americanos, decorrentes, entre outros fatores, da consolidação de um novo ambiente democrático que, conjugado a um Estado enfraquecido pela política neoliberal, possibilitou o aparecimento de novos atores sociais no cenário sul-americano. São novas redes sociais, como as ONGs e as mídias alternativas, que influenciaram o fortalecimento de novas subjetividades coletivas. O discurso em torno da universalização dos direitos humanos, da justiça e da responsabilidade social assume a linha de frente do debate político.

Atualmente, vivencia-se na América do Sul um embate salutar entre a democracia representativa e a democracia participativa. Essa constatação se evidencia na geração de intenso debate, pesquisas e proposições tanto por parte de universidades e institutos de pesquisa quanto de organizações não-governamentais e governamentais.

Alguns analistas apontam que vários movimentos sociais efetivamente expressivos vêm procurando desenvolver e consolidar uma “política de autonomia” em relação ao Estado e aos partidos políticos, o que, por sua vez, tem fortalecido a sociedade civil (Domingues, 2007).

O que há de positivo nesse processo é que novas proposições e reivindicações podem ser agregadas à agenda pública, desatrelando-se de uma postura apenas reativa quanto às políticas públicas estatais. Assim, a dinâmica dos movimentos sociais e a proliferação de organizações que têm surgido na sociedade civil dos países sul-americanos começam a despontar como possibilidades concretas para a organização de movimentos sociais transnacionais.

Portanto, para viabilizar estratégias de integração regional sul-americana será necessário que estas sejam concebidas sem nenhuma estreiteza do nacionalismo cultural nem visão essencial e ontológica de cultura.

Nos anos 1920 e 1930, o nacionalismo cultural foi deveras importante em toda a América do Sul. É preciso observar que foi especialmente significativo para os processos de construção e consolidação das culturas nacionais, sendo estas pensadas a partir de seus elementos constitutivos, considerando as diversas etnias presentes no contexto sul-americano.

Nessa chave, a integração não pode ser confundida com unificação, mas sim como possibilidade de disseminação das diferentes tradições e práticas culturais que possam permitir novas conexões entre diferentes grupos sociais.

Igualmente, o processo de integração não pode ser pensado fora da moldura da configuração sócio-histórica e cultural, ou seja, ignorando os elevados índices de desigualdade econômica e social presentes nos países envolvidos nesse projeto recém-implementado, em que ganham destaque os baixos níveis de educação e escolaridade e as dificuldades de acesso à informação e aos bens culturais.

Caberia, aqui, introduzir a discussão de um eixo analítico que diz respeito às possibilidades renovadas de transformar a cultura em recurso simbólico, político e econômico que efetivamente contribua para a consolidação da democracia e da cidadania – poderosos vetores para a consolidação do processo de integração sul-americana.

Novas articulações

Entendemos que as manifestações culturais, estéticas e patrimoniais dos mais diferentes grupos sociais podem colaborar para a constituição de novos agenciamentos, de novas e renovadas identidades coletivas, viabilizando a reprodução social de diferentes grupos sociais, inclusive de múltiplos grupos subalternos, como os camponeses, os indígenas e os artesãos, e possibilitando novas articulações entre cultura e desenvolvimento sustentável. Mais uma vez, a cultura pode conectar recursos simbólicos, econômicos e políticos. O que se deseja enfatizar é a importância dos muitos saberes existentes em nosso continente, a riqueza e a diversidade de nossa cultura e de nossa arte. Assim, é preciso antes de tudo romper com os cânones da exotização da cultura e da arte latino-americanas, construídos pelo “olhar estrangeiro”, e permitir que os grupos produtores de arte possam expressar sua própria voz ou seu próprio sotaque, de forma altiva e com plena legitimidade.

Uma breve retrospectiva histórica evidencia a centralidade de algumas categorias discursivas na agenda interpretativa sobre a América do Sul. Nos anos 1950/1960, por exemplo, desenvolvimento e dependência eram noções básicas na proposição de políticas públicas; nos anos 1970/1980, o tema da democratização passou a permear todos os debates e fóruns de discussão; nos anos 1990/2000, a cultura entrou em cena como nova força propulsora na construção de novas solidariedades, novas possibilidades de troca entre os diferentes grupos sociais e países, assim como novos agenciamentos identitários.

No entanto, é bom ressaltar que a ênfase atribuída à cultura dos países da América do Sul se deve não só ao influxo da globalização – que simultaneamente valorizou e banalizou a singularidade das culturas – mas, sobretudo, aos processos de democratização experimentados pelo continente nas últimas décadas.

Estudando o lugar da cultura nas articulações propostas pelo Mercosul nos anos 1990, especialmente no que concerne à dinâmica das indústrias culturais e suas possibilidades integrativas, Alves de Souza (2004) observa:

“A integração latino-americana adotou padrões inovadores nos anos 1990, mas já veio alojada no contexto da globalização, portanto, muito marcada pela idéia de proeminência do mercado. A cultura foi colocada num lugar passivo, ou mesmo tendo como pressuposto uma idéia mecanicista de cultura” (Alves Souza 2004:35).

Contudo, parece-nos razoável afirmar que também houve avanço na discussão sobre as dinâmicas culturais e sua importância nos ordenamentos sociais e nos acordos coletivos nacionais e transnacionais.

É o próprio autor citado que afirma que, contemporaneamente, a cultura pode oferecer um repertório de elos identitários, transformando a idéia essencializada de cultura ou identidade, destinadas à repetição. Ao contrário, a dinâmica cultural atual é capaz de propor mecanismos e estratégias que suscitem o sentido de pertencimento e a capacidade de viabilizar direitos (Alves Souza, 2004:42).

Portanto, estabelecer conexões entre cultura e direitos parece ser uma tarefa urgente e necessária, especialmente quando se está tratando de América do Sul. E, nesse sentido, urge enfatizar a relação entre cultura e direitos humanos, cuja referência deve dirigir-se tanto às reflexões pertinentes às questões do acesso à cultura quanto à possibilidade de expressar e veicular conteúdos simbólicos e representações coletivas diferenciadas dos padrões hegemônicos, vigentes nas diversas sociedades nacionais.

É preciso, ainda, considerar de modo distinto a questão da modernidade na América do Sul e mesmo na América Latina, onde pulsam as mais diferentes tradições. Segundo Canclini, a América Latina é o lugar “onde as tradições ainda não se foram e a modernidade não terminou de chegar” (Canclini, 2008:77). Atualmente, a compreensão da cultura não se resume aos mecanismos de produção de identidade, mas também é importante considerar as estratégias para a produção de novos agenciamentos societários e valorativos.

De modo análogo, a cultura não deve ser pensada apenas no âmbito das políticas culturais estatais ou das propostas de acordos multilaterais, nem como mero produto, evento ou espetáculo, mas sim como processo permanente de criação de uma urdidura simbólica que permita o múltiplo entrecruzamento de experiências e tradições. Crê-se que só assim se poderá canalizar a emergência de identidades múltiplas, construídas no entre-lugar (Santiago, 2006) de diferentes discursos e de processos diferenciados de incorporação da modernidade.

Categorias como fronteira, entre-lugar, mistura, hibridismo, impureza e heterogeneidade podem melhor iluminar nossa realidade e, quiçá, nosso destino. Porém, essa trajetória só será possível se houver vinculação entre cultura e direitos humanos em geral, e entre cultura e direitos culturais em particular.

Nesse sentido, também será necessário construir estratégias e canais de expressão próprios, de modo a possibilitar que os mais diferentes e diversos grupos sociais presentes no continente possam desfrutar de reconhecimento e visibilidade no espaço público, e ainda, conforme argumenta Hannah Arendt, que tais grupos possam expressar não apenas suas identidades, mas também exercer sua palavra e sua ação nesse espaço público e, principalmente, ser reconhecidos como legítimos.

Cabe lembrar que uma forma contundente de violência simbólica é a própria invisibilidade de determinados grupos sociais na sociedade contemporânea, como tem sido o caso de indígenas, negros e mulheres no Brasil ao longo de vários séculos, e também de muitos grupos étnicos e de migrantes em praticamente todos os países sul-americanos. Em suma, o que se verifica ao longo da história é que os grupos subalternos inexoravelmente tendem à invisibilidade. Dessa forma, precisamos deixar de pensar as práticas culturais e o desenvolvimento sul-americano apenas como emergentes. É preciso também mudar a postura e pensar a América do Sul como espaço insurgente, onde alternativas podem surgir e um novo espaço público pode se desenvolver – um novo espaço público onde é possível atuar e agir em conjunto, mesclando a diversidade, para que de fato irrompa a construção de novas subjetivas coletivas.

Atualmente, há em curso experiências de criações coletivas transacionais e translocais, nas áreas de música, cinema, vídeo, teatro e produção de conhecimento, muitas dessas práticas viabilizadas por acordos de cooperação técnico-científica entre institutos e universidades sul-americanas.

Ratificamos que é mais produtivo pensar a cultura como arena de lutas simbólicas, onde muitos embates são travados e o horizonte do possível pode se ampliar para além dos limites então existentes.

Assim, pensar a cultura como campo de possibilidades interativas e propositivas a respeito da organização dos interesses coletivos é uma tarefa necessária para todos os atores envolvidos no processo de integração.

Atualmente, o que se constata é uma valorização da cultura não apenas como um conjunto de práticas cotidianas e processos permanentes de produção de significados, mas, sobretudo, como fonte e repertório para a produção de novos valores.

Concebida nesses termos, a cultura pode gerar relações renovadas e profícuas com a política, o que, necessariamente implicará enfatizar a compreensão da política como a gestão dos interesses coletivos de grupos sociais ou nações.

Isso posto, constata-se que a discussão sobre o que é o político deixa de remeter-se exclusivamente à dimensão institucional relacionada às atividades do Estado e dos partidos e assume um enraizamento social que suscita a organização de associações, de grupos coletivos e de criações conjuntas, fortalecendo o tecido social.

Mais uma vez, o que se deseja ressaltar é a importância significativa dos processos de democratização política nas sociedades sul-americanas, que permitiram uma nova dinâmica e um novo reordenamento da sociedade civil. E foi esse novo reordenamento que impulsionou a dinamização da cultura, uma vez que as práticas culturais, mais do que outras instâncias, ensejam e contribuem para a organização dos interesses coletivos.

Porém, a dimensão política pressupõe, por parte dos responsáveis pela elaboração de políticas, a capacidade de articular novos sistemas de representação sobre si e sobre os “outros” – os hegemônicos e os subalternos.

Supondo uma agenda de pesquisas e estudos, seria importante observar como novos atores intervêm no espaço público por meio de uma luta simbólica travada para produzir representações alternativas e identidades sustentáveis, ancoradas em valores coletivos densamente compartilhados que passam a alterar a distribuição de poder.

Crê-se, em suma, que será por intermédio desse processo que novas identidades poderão acionar as estratégias políticas, enraizando-as na tessitura da cultura, na qual efetivamente se desenrola a luta para impor os sistemas de representação vigentes em determinado momento histórico.

É possível que assim se possa intervir nas políticas culturais que contribuem para expressar de forma sincera a multiplicidade de tradições culturais e das manifestações estéticas dos mais diferentes grupos existentes nas sociedades sul-americanas.

Desse modo, a integração do continente passa inexoravelmente pela necessidade do que Gramsci chamou de “produção de sentido comum” (apud Quijano, 2001). Para tanto, é importante produzir e implementar operações de gramática de reconhecimento mútuo entre diferentes grupos e diferentes países. Políticas culturais devem ser interpretadas como vetores visando a construção de valores coletivos.

Sem a sustentação de valores culturais compartilhados – e este é um fato comprovado historicamente – não haverá acordo coletivo durável e consistente no continente sul-americano.

A cultura não é apenas uma “reserva de valor”, mas um repertório produtivo que passa a agenciar novas responsabilidades coletivas na construção de um continente justo e democrático.

* Mariza Veloso é pós-doutora em antropologia urbana pela New York University, doutora em antropologia cultural pela Universidade de Brasília e professora da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco – Ministério das Relações Exteriores.

- Texto originalmente publicado no jornal Le Monde, edição nacional.

04/10/2009

LA NEGRA SE FUE...

A primeira notícia deste domingo foi da morte da cantora argentina Mercedes Sosa... ela já não estava bem de saúde há um tempo, embora insistisse em continuar cantando. Ícone inconteste da música latino-americana, tornou-se porta voz de uma geração inconformada e expoente da "Nueva Canción", movimento musical dos anos 60, com raízes cubanas, africanas, andinas e espanholas, que deu o tom às canções de protesto, contra as desigualdades sociais e liberdades vigiadas.

La Negra, como era conhecida, foi uma militante ativa, durante os pesados anos da mais sangrenta de nossas ditaduras, a argentina, que perdurou de 1976 a 1983. Afirmou-se comunista até o fim, e suas letras foram o testemunho vivo da história de luta pela liberdade, contra os regimes totalitários na América Latina.
Em 1979 em um show em La Plata foram presos Mercedes, os músicos e o público, inciando um período de perseguição que a levou ao exílio em Madri nos anos seguintes.

Contava um querido professor uruguaio, que no show do Gigantinho em Porto Alegre, nos anos 80 - quando uma bomba de efeito moral foi detonada, ameaçando a não continuação do espetáculo - que as luzes do ginásio foram acesas, como uma forma de repreender a apresentação, e que tal ação acabara tendo efeito contrário, ao assumir o comando, La Negra disse que aquilo era ótimo pois assim se poderia identificar a "los ratos" mais claramente, referindo-se aos agentes infiltrados na platéia, e em seguida acalmou o público conduzindo-os em um coro entusiasmado e muito emocionado.

Eternizou "Gracias a La Vida" de Violeta Parra, e " sua voz iluminou alguns dos tempos mais escuros que a América Latina já experimentou", como bem colocou um jornalista da Zero Hora. Mas pra mim, a música que mais marcou, foi "Solo le pido a Dios," uma canção que sempre me remeteu a uma série e imagens, manifestações e um grande nó na garganta, e que agora ao procurar por ela no You tube, encontrei esse vídeo que traduz muito bem tudo o que o nosso mundo vem passando de meados dos anos 1970 pra cá.



Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacia y sola sin haber hecho lo suficiente.

Solo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Despues que una garra me araño esta suerte.

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

Solo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede mas que unos cuantos,
Que esos cuantos no lo olviden facilmente.

Solo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado esta el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.



28/04/2009

CHICO SCIENCE


"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente e não que sejam forjados para acontecer, deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente, deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos."

20/04/2009

YERBA MATE - ILEX PARAGUARIENSIS - CHIMARRÃO - MATE


Em um momento típico de "Saudades do pago", coloco na roda, como um bom chimas, esse material interessante com as regras para tomar o chimarrão..."chi-chi-chimarrão criolo" para a gaúchada... "mate" para los hermanos ...

Hábito indígena que tornou-se tradição!

Herdado das culturas Guarani, Quíchua e Aymará e que mantém-se vivo até hoje em todo sul do Brasil e em grande parte da América do Sul...

REGLAS PARA COMPARTIR EL MATE

1.No pida azúcar.
Mucha gente está acostumbrada a usar azúcar en su café o té, y es perfectamente correcto el pedir por ella.
Mucha gente también toma Mate con azúcar.
Pero cuando Ud. es invitado a una Mateada, Ud. puede cometer el mayor sacrilegio imaginable por pedir azúcar.
2.No diga que el Mate es antihigiénico.
Ud. puede pensar que es antihigiénico el poner su boca donde los demás ponen la suyas.
Por supuesto que lo es, pero eso es precisamente la experiencia íntima de una Mateada.
La oferta de compartir algo tan íntimo es el honor más alto. Si Ud. no quiere ser tan íntimo con alguién, no comparta el Mate con ellos.
Si desea compartir entonces una mateada, no diga nada sobre la higiene.
3. No diga que el mate está muy caliente.
Si todos los demás están contentos con la temperatura del Mate, se consideraría de mala educación el pedir que lo enfríen o el esperar hasta que se enfríe.
4.No deje el Mate a medio tomar.
A pesar de la similidad entre el Mate y la pipa de la paz, hay algunas diferencias básicas.
Mientras que cada uno toma una pitada de la pipa y la pasa, nunca haga eso con el mate.
Ud. debe tomar toda el agua hasta que escuche el sonido que señala que el mate está vacío.
Vea la regla siguiente.
5.No sienta vergüenza del ruido al final.
Si, después de chupar, Ud. escucha el mate "roncando", no se sienta avergonzado. Es normal, nadie lo va a mirar como un maleducado.
Es lo que se debe hacer.
6.No revuelva el mate.
El mate se puede tapar de vez en cuando por si mismo, por la Yerba o por el que preparó el Mate.
Si pasa, Ud. tiene todo el derecho a quejarse.
Pero, por favor no revuelva el mate.
Hable con quién le ofreció el Mate, o al que le pasó el mate a Ud.
Pero no revuelva el mate, no revuelva el mate y, ante todo no toque la bombilla con sus dedos.
7.No cambie el orden.
Una mateada da la vuelta como el reloj.
El mate pasa de mano en mano siempre en el mismo orden.
Si Ud. está siendo servido pase el mate al cebador.
Si hay gente cebando con su propia agua, que sucede en algunos lugares, siempre paselo a la siguiente persona, sin cambiar el orden.
8.No atrase el ritmo.
Tomar el Mate sólo es una excelente manera para meditar sobre las cosas de su vida.
Ud. lo toma despacio, pensando acerca de cualquier cosa que le pasa por la mente.
El tomar Mate en una Mateada es completamente diferente.
La esencia no es la meditación sino la integración.
En una Mateada, Ud. habla, discute, ríe, maldice, Ud. es parte de la comunidad; es una hermandad.
No se olvide de chupar, el resto de la gente está esperando.
9.No condene al cebador por tomar el primer mate.
Si Ud. dice que el cebador es maleducado porque él o ella prepara el Mate y toma el primer mate, bueno, Ud. es el maleducado.
La chupada más fuerte es la primera, y quien la toma le hace un favor al grupo.
10. No diga gracias antes de tiempo.
Se dice gracias sólo cuando uno ya no quiere seguir Mateando.

05/01/2009

Diversão é Solução Sim!

...

Tudo isso, ás vezes tudo é fútil
Ficar fébrio atrás de diversão
Nada disso, às vezes nada importa
Ficar sóbrio não é solução

Diversão; solução sim
Diversão; solução prá mim
Diversão; solução sim
Diversão; solução prá mim
Diversão; solução sim
Diversão; solução prá mim
Diverssão
Diverssão

A vida até parece uma festa
Em certas horas isso é o que nos resta
Não se esquece o preço que ela cobra
As vezes é muito caro...
Em certas horas isso é o que nos sobra

Ficar frágil feito uma criança
Só por medo ou por insegurança
Ficar bem ou mal acompanhado
Não importa se der tudo errado

17/12/2008

Então é Natal....












04/12/2008

O IMPÉRIO DO CONSUMO


A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango,deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos,segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98,outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver,conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawn, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.

Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Eduardo Galeano
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